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Coliseu celebrou a diversidade e o encontro dos ritmos lusófonos

Deolinda, Don Kikas e Marcia Castro em Festival Conexão Lusófona

| O Coliseu dos Recreios, em Lisboa, foi desta vez o palco escolhido para acolher, na passada sexta-feira, 18 de Setembro, a 4ª edição do Festival Conexão Lusófona. Em palco misturaram-se os sons da Lusofonia num festival diferente, nas diversas variantes que a língua portuguesa pode ter. Esta iniciativa musical, que teve a parceria do Ano Europeu para o Desenvolvimento, proporcionou a todos os presentes uma viagem pelos diferentes estilos lusófonos, dos mais tradicionais aos mais modernos, como o fado, a kizomba, o semba e o samba, entre outros, apostando, sobretudo, nos duetos e fusões de estilos musicais, origens e gerações.

No palco, nomes já consagrados como os portugueses Deolinda misturaram-se com novos talentos da música dos países de língua portuguesa, caso de Binhan Quimor (Guiné-Bissau), Calema (São Tomé e Príncipe) com a participação especial da brasileira Kataleya, Benvinda de Jesus (participante do The Voice Kids Portugal natural de Timor-Leste), Filipe Santo (São Tomé e Príncipe), e ZukaTuga (Portugal-Brasil). O músico angolano Don Kikas, o moçambicano Costa Neto e a cabo-verdiana Elida Almeida também estão entre os convidados, assim como a cantora brasileira Marcia Castro e Kataleya, artista nascida no Brasil e radicada na Suíça.

Festival Conexão Lusófona

Esta iniciativa é organizada por uma Organização não-governamental com o mesmo nome que tem associados espalhados por vários países. A Conexão Lusófona está a desenvolver, em parceria com seis associações europeias (nomeadamente de Berlim e Luxemburgo), um mapeamento de todas as comunidades de língua portuguesa, uma iniciativa inédita segundo Bruna Riboldi, editora-chefe do Portal da Conexão Lusófona: “É um mapeamento que está a levar dois anos e é feito via financiamento europeu. Portanto, no fim do ano que vem, pretendemos ter, pela primeira vez, uma real noção de onde estão as pessoas que falam português dentro da Europa e o que estão a fazer e em que número são”.

Estes artistas promoveram “a mensagem das culturas de língua portuguesa e a sua participação compreendeu, na generalidade, uma gratificação simbólica”, já que a ideia principal era ‘apenas’ a de espalharem, “através da música, a mensagem e valores de uma nova geração”, explica a organização.

Segundo os organizadores, este evento teve como objectivo “promover o diálogo entre gerações e contribuir para um maior envolvimento da sociedade civil no desenvolvimento do espaço lusófono, partindo do princípio que a cultura tem um papel fundamental para o desenvolvimento de uma identidade colectiva, assumindo-se a lusofonia como um valor cultural partilhado”. Enquanto concepção artística, o concerto focou-se na inter-culturalidade numa abordagem de proximidade, descontraída e informal junto do público.
O espectáculo teve a direcção musical assinada por P.L.I.N.T. (Pablo Lapidusas International Trio), formado por Pablo Lapidusas, Marcelo Araújo e Leo Espinoza, e este ano contou ainda com a abertura especial dos bailarinos dos estúdios de dança Jazzy.

Fotorreportagem José Lorvão

A 4ª edição do Festival Conexão Lusófona contou com uma parceria com o Ano Europeu para o Desenvolvimento (AED) e, em particular, com o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, entidade coordenadora do AED em Portugal. A iniciativa foi ainda apoiada pela Secretaria de Estado da Cultura, pela Secretaria de Estado da Juventude, pela Fundação Portugal-África e pelo Alto Comissariado para as Migrações.

As edições anteriores do festival reuniram vários milhares de espectadores, aumentando em cada uma das edições (cerca de 1200 na 1ª e 2500 na 2ª). A última, em Julho de 2014, juntou quase 6.000 espectadores no Largo do Intendente. Um número histórico já que se inseriu dentro da programação do “Intendente em Festa”, uma edição que foi aberta ao público, tendo reunido artistas como António Zambujo, Paulo Flores, Projecto Kaya, Lura e Paulo de Carvalho, entre outros, refere a organização em comunicado. Para esta edição as previsões apontavam para três mil pessoas, que é a capacidade da sala do Coliseu dos Recreios.

Don Kikas defende que interacção traz mais riqueza à arte

O Jornal Dínamo falou ainda com Don Kikas, que foi o representante angolano na quarta edição do Festival. Criado entre Angola e o Brasil, o cantor considerou esta como “uma ocasião especial”, por “poder partilhar momentos musicais com artistas de outras paragens, até porque é também uma oportunidade para aprender coisas novas com essas culturas que apesar de virem de países irmãos, não deixam de ser culturas diferentes”.
Relativamente ao Festival Conexão Lusófona, o artista garante ser “apologista da interacção entre artistas da qual resulta misturas como a junção do sotaque do Brasil com o de Angola ou o do crioulo de Cabo Verde ou com a pronúncia portuguesa, seja do Norte ou do Sul. É este tipo de coisas que traz mais riqueza à própria arte”.

Don KikasConsiderando que a lusofonia tem muito talento, nomeadamente Angola, Brasil, Portugal ou Cabo Verde, Don Kikas defende que “deviam de existir muitas mais iniciativas destas, até mesmo para fortalecer os laços entre esses nossos países, para podermos, de forma mais unida, tentar até exportar essa cultura lusófona para outras paragens de linguagem diferente”.
Apesar de ter alguns temas cantados em quimbundo e em umbundo (línguas africanas faladas em regiões específicas de Angola), este angolano considera “importante cantar em português, porque dentro do nosso universo não deixa de ser a língua mais abrangente. É uma ferramenta com uma série de vantagens, principalmente porque o português é uma das línguas mais faladas no mundo, havendo cada vez mais pessoas a aprenderem o português”.

Em conversa com o Dínamo, Don Kikas confessou ver “neste momento uma nova abertura para a música africana em geral, mas especialmente para a angolana, por parte de mercados que se calhar há três anos nem sequer sabiam muito bem o que era Angola. Neste momento Angola está na moda e esses países querem também conhecer o que é a nossa cultura. Então um dos meus desejos – enquanto angolano e artista – é poder ver a música angolana bem representada nas montras do mundo inteiro, tal como já acontece com a música do Senegal, dos Camarões ou da África do Sul”.

Marcia Castro garante que “é aqui que a nossa cultura se encontra”

Do Brasil veio a cantora e instrumentista Marcia Castro para representar o seu país na 4ª edição do Festival Conexão Lusófona. Confessando que não sabia da existência deste evento, nem mesmo da organização responsável pelo mesmo, que é especializada em gerir os laços entre os países de língua portuguesa, a representante do Brasil considera a iniciativa “muito interessante”.

Marcia CastroHá muitos anos trilhando os caminhos da Música Popular Brasileira, esta baiana mostrou-se muito contente com a surpresa que teve ao ser convidada: “Para mim foi muito gratificante por poder cantar em Portugal, que é o lugar originário de tantas coisas, não só da minha música, mas também a nível pessoal, pelas minhas matrizes humanas. Para além disso foi uma surpresa muito boa ter sido convidada a participar de um festival que reúne artistas de diversas culturas, mas que tem uma linha que nos liga, que é a língua portuguesa. É muito rico sabermos que apesar das nossas distâncias geográficas, ao nos encontrarmos aqui com os nossos irmãos de língua percebermos os nossos parentescos, as nossas afinidades… é aqui que a nossa cultura se encontra!”.
Marcia Castro faz ainda questão de sublinhar que é uma cantora que só canta na sua língua, pelos simples facto de “gostar da língua portuguesa, da sua sonoridade, da poesia em português. Então é muito bom ver essa língua aí espalhada de outros jeitos, com outros sotaques… mas ainda assim em português”, confessa.
Por esta razão considera ser importante a existência de um projecto desta envergadura, que une todos por uma só língua em comum: “A partir da cultura nós podemos fortalecer laços afectivos, sociais e outros que ultrapassam a fronteira do cultural, do económico ou do político”.
Nesse sentido, Marcia Castro deixa um apelo: “Em virtude de serem apenas dez os países onde o português é língua oficial (Brasil, Moçambique, Angola, Portugal, Guiné-Bissau, Timor-Leste, Guiné Equatorial, Macau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe) é preciso que se criem formas de fortalecer essa comunidade. É a partir dessa empatia que vamos tendo uns pelos outros que vamos trabalhando não só em prol da cultura e da música, mas também tendo em vista outras formas de solidariedade entre as nações de língua portuguesa. Por tudo isto é muito importante que existam iniciativas como esta.”

Fotorreportagem José Lorvão

Fotos: José Lorvão

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