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Sentida Vénia a PJ Harvey

NOS Primavera Sound 2016

Recordo-me da primeira vez que assisti a uma actuação da Polly Jean. Foi em Novembro de 2000, num showcase de inauguração da FNAC de Santa Catarina no Porto. Na altura, corria nas rádios o hit “Good Fortune” do álbum “Stories from the City, Stories from the Sea”.

Aquela vibrante voz que entoava o refrão, “And I feel like, Some bird of paradise, My bad fortune slipping away. And I feel the, Innocence of a child! Everybody’s got something good to say”, deixava-me atónito e descalibrava o meu pouco equilíbrio de uma pré-adolescência, que há muito sentia que o Porto era uma cidade parada demais, para um espírito que exigia mais da urbe.

PJ Harvey

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Acabaria por perder a Polly um ou dois anos mais tarde, rendendo-me a sonoridades que envergavam cenários mais negros e grotescos. Na realidade, tratei sempre de camuflar estes meus gostos do folk rock e punk blues por um bom punhado de anos.

Anos mais tarde, já havia eu vomitado todo o cenário dark metal das minhas preferências, andava numa descoberta arrojada por algo que me completasse. Encontrei um certo conforto em Nick Cave, Mariane Faithful e David Bowie.

Corria o ano de 2011 e o meu destino acabaria por se cruzar novamente com Polly Jean e os seu aclamado “Let England Shake”. Canibalizei o álbum e em especial “On Battleship Hill”, traria a mim uma inquietude que borbulhava, se inconformava mas que findava sempre numa calma soberba no refrão final em falsete, ”Cruel nature has won again”.

“Let England Shake” é um álbum político e de intervenção, um manifesto inconformado à carne que tomba nas guerras e jorra sangue em rios manchados de dor na alma. É um registo pessoal onde Polly encara os temas da guerra e da política como pessoais e o carimba com o folk negro e nos desarma ao ponto de considerarmos uma obra-prima.
Esta obra-prima viria a ser reconhecida pela crítica e também pela rainha que elevara PJ Harvey a Dama do Império Britânico, em 2013, não pelos números mas pela ode poética que exalta os feitos e vergonhas da Guerra.

Nos anos que se seguiram, continuei na minha perseguição pela catalisadora obra de PJ Harvey até que em 2015 descobri os poemas da artista compilados em “The Hollow of the Hand” em parceria com o cineasta Seamus Murphy.

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Nesta obra, Harvey vai em busca dos mistérios do próximo, do desconhecido no Kosovo, Afeganistão e até em Washington DC, onde sente o cheiro do ar, sente o chão e conhece as pessoas locais. Nessa colectânea abrir-se-ia mais uma porta para um aclamado álbum, “The Hope Six Demolition Project”.

O título do seu nono trabalho de estúdio é como uma referência ao projecto HOPE VI – projecto do governo norte-americano que revitaliza as denominadas áreas das periferias urbanas criminosas e entregues aos ditos gangues locais.
O referido projecto, acaba por ser reclamado pelos locais uma vez que atrás da recuperação urbana floresce a especulação imobiliária que transforma as mesmas incomportáveis, para quem vive em situações de pobreza declarada.

Depois de “Let England Shake”, PJ Harvey mergulha num profundo roteiro de viagens em cenários podres da guerra e de miséria que materializa em poemas que não são bonitos pelos cenários mas sim pela forma honesta e descomplicada como os constrói e aproxima o ouvinte desta problemática, que a todos pertence no álbum “The Hope Six Demolition Project”.

E agora, o que há para dizer da actuação da britânica no NOS Primavera Sound?

Muita coisa! Podemos começar pela afluência do público que esgotou o dia para ouvir quiçá uma das maiores sacerdotisas do rock, que cunha com estilo próprio o seu rock.

Não há lugar a devoções a uma diva. Polly Jean prefere envergar as vestes de antagonista dos papéis de divas do rock, entrando em palco e abrindo a actuação com “Chains of Keys”, acompanhada por uma banda em modo fanfarra folk, numa bem orquestrada parada militar, para trilhar o seu iluminado cancioneiro de experiências intensas no universo decadente da guerra e da misantropia da classe política, aos mais desprotegidos da sociedade.

Houve gritos, houve contemplação e houve singelas interacções entre a artista britânica e o público, quase no final. E porque? Porque há trabalho que deve ser mostrado e cantado e mais do que conversas com o público, há uma obra que fala por si.

O saxofone, seria sempre um companheiro fundamental na actuação. Aliás, será o seu instrumento favorito, considerando que foi o primogénito no seu processo de aprendizagem na música.

John Parish

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Foi uma prestação invulgarmente carregada de mensagens políticas numa missão que deixa o público rendido, à medida que Polly Jean e o seu companheiro de viagem, John Parish, vão intensificando a actuação com “The Community of Hope”, (onde narra as profundas transformações nas comunidades, que nem sempre são o mais salutar remédio) ou “The Orange Monkey” e “The Wheel” (primeiro single do último trabalho de estúdio da artista).

No regresso ao ano de 2011, Harvey, retoma os temas “Let England Shake”, “The Words that Maketh Murder” e ao triunfante “Glorious Land” que são recebidos pela assistência como autênticos salmos eclesiásticos.

Mas nem só de política foi professada a actuação de Polly Jean.
Numa breve analepse, regressa ao singular “White Chalk” (2007), para uma interpretação quase tétrica de “When Under Ether” que acabaria por se estender até “Dollar Dollar” no regresso a “The Hope Six Demolition Project” (2016).

Houve tempo para uma celebração de temas de “Rid of Me” (1993), num chamamento ao punk de “50 Ft Queenie” ou ao sensual “ Down By the Water”, do disco de estudos “To Bring You My Love”, de 1995.

Para fechar, regressa ao “River Anacostia” com o mesmo vigor de quando entrou em palco e sensibiliza o público para os perigos do desleixe dos agentes políticos locais, para a preservação do meio ambiente e consequente protecção da saúde pública.

Uma actuação, mais do que singular, única e intensa que foi retribuída com o respeito que há muito não se via nas actuações em festivais, onde o silêncio imperou num venerar profundo a uma artista que pode parecer que não, mas é amada por terras lusitanas.
Para além disso, a artista, trata de assuntos com uma actualidade, que às vezes o alheamento social tenta esconder, mas que Polly Jean denuncia com a maior arma que possui, a música.
Sem dúvida, um oxigénio que encheu os pulmões de cada um dos presentes e revigorou a sua alma, numa consagração à música como meio de comunicação primordial do ser humano.

Fotos: NOS Primavera Sound © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography
#nosprimaverasound

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