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Entrevista a João Reis, Actor

Entrevista

No meio de uma Pandemia que ninguém previu nem esperava, o Jornal Dínamo tenta continuar a realizar o seu trabalho de dignificação da Cultura.
Hoje apresentamos mais uma entrevista, desta vez ao Actor João Reis. Falámos dos tempos que estamos a passar, do passado, do presente e do futuro que se deseja, se adivinhe mais risonho para a Cultura e para todos aqueles que a tornam num dos bens mais importantes do mundo. Um país sem cultura é um país sem identidade e quisemos saber como se consegue viver de uma Cultura tão pouco apoiada.

Devido também à Pandemia esta foi uma entrevista realizada à distância, numa conversa agradável, integra e sincera de um dos Actores que já provou a Portugal e ao mundo que ainda tem muito para dar à cultura onde quer que ela se realize.

J.D. – Para começarmos a nossa conversa, falemos um pouco do teu percurso, como as artes entraram na tua vida?

J.R. – De uma forma quase acidental. Andava numa deriva e numa indefinição enormes em relação ao meu futuro. A marcar passo para a Faculdade, talvez filosofia, ou para a Escola Superior de Teatro. Um dia, num anúncio do semanário Se7e (já desaparecido) surge uma hipótese de candidatura para um curso de formação de actores no IFICT (Instituto de Formação e Criação Teatral, fundado por Adolfo Gutkin) e decidi concorrer. Foi o início de uma enorme aventura e descoberta, já com 30 anos!

João Reis, ActorJ.D. – Quando começaste a trabalhar, que oportunidades te apareceram? Era o que desejavas fazer?

J.R. – Comecei a trabalhar assim que acabei o curso e fui conciliando o meu trabalho de Actor com outras ocupações mais ou menos temporárias, trabalhei numa livraria, trabalhei no Frágil no início dos anos 90 e ensaiei muitas vezes em produções simultâneas. Era uma vida de grandes sobressaltos, mas também de enorme entusiasmo.

J.D – Volvidos já anos de muita experiência e trabalhos, como vês hoje a profissão de Actor?

J.R. – Vejo que se tornou uma profissão desejável e permeável a muitas infiltrações, fruto do enorme poder das redes e da produção televisiva. Há obviamente muitos equívocos relativamente à possibilidade de se ser bem-sucedido e ao carácter e à natureza da profissão, mas há também preconceitos que devem ser desfeitos e combatidos. Dito isto, há mais diversidade, há mais qualidade mas também há mais ilusões que na maior parte dos casos, acabam por se desfazer naturalmente.

J.D. – Neste momento em que estamos a viver tempos complicados por termos sido atingidos por uma pandemia, o que mudou?

J.R. – Em rigor, não mudou nada. Aliás, a pandemia veio revelar e confirmar a enorme fragilidade de um sector que está sempre à mercê da boa vontade política e de alguns acertos de contas que os artistas, de uma forma inconsistente, vão fazendo entre si. Felizmente, há também muitas pessoas a defender e a lutar pela dignidade da profissão. É uma prática que se constrói e afirma diariamente, até de uma forma individual, mas que para ter sucesso e voz precisa inevitavelmente de um colectivo.

J.D. – Viver das artes e da cultura de uma maneira geral, nunca foi fácil. Na tua óptica o que poderia se fazer e não está a ser feito?

J.R. – Criar e desenvolver de forma clara o estatuto do artista, fazer a revisão do enquadramento e dos apoios da segurança social, reforçar significativamente o orçamento para a cultura e os mecanismos que permitam activar e despertar a importância das artes e da cultura a partir da escola, num contexto de interação com o Ministério da Educação.

J.D. – O facto de certas áreas terem sido fechadas às suas actividades e outras não, o que diz do nosso país e dos nossos governantes?

J.R. – Diz o que sempre disse: que a cultura, de uma forma genérica, não é considerada um bem de primeira necessidade. Ainda que depois na prática se perceba que ela é a base da nossa sustentabilidade mental e anímica.

J.D. – O que achas que poderiam ter feito de forma diferente?

J.R. – É difícil fazer julgamentos num contexto tão difícil e caótico como o que estamos a atravessar, mas a eficácia das medidas relativamente ao sector cultural deixam muito a desejar. Na rapidez, na comunicação e nos resultados.

J.D. – Sabendo que a cultura é sempre uma das áreas mais afectadas, sempre que algo de menos bom acontece, porque será que ela não é vista como um bem económico, tal como outros e que pode enriquecer um país?

J.R. – Porque habitualmente se olha para ela como a filha rebelde e chata que só sabe pedir e reclamar, esquecendo-nos que ela dá muito mais do que lhe dão e que é uma das garantias do nosso futuro e da nossa memória.

"Hamlet"J.D. – Os papéis e as personagens que tens feito são bastante impactantes. Há algum papel ou personagem que te tenha marcado especialmente? Há algum que gostasses muito de fazer e ainda não tenhas feito?

J.R. – É difícil responder objectivamente a essa pergunta. Há muitas personagens que me marcaram por razões completamente distintas. Pelas pessoas, pela contra-cena, pelas dificuldades, pela alegria da descoberta, pelos limites ultrapassados, pelas conquistas, pela exuberância, pelo prazer do contraditório, pela possibilidade de reformular o pensamento e o conhecimento… sei lá, há tanta coisa! Mas se tivesse de escolher um apenas, talvez o Hamlet, porque aconteceu num momento difícil da minha vida que foi a morte do meu pai.

J.D. – Também te tens dedicado à encenação? Estar em palco ou dirigir são trabalhos diferentes. O que te atraiu na encenação?

J.R. – São trabalhos distintos mas a matéria é semelhante. Enquanto encenador, tenho obviamente de ter uma visão mais abrangente do texto e do espectáculo, apontar caminhos, ter ideias, transmitir confiança, gerir emoções e dificuldades, tentar mostrar o invisível… mas acima de tudo o que me entusiasma mais é ajudar os actores a encontrar “o caminho”.

J.D. – Tens também projectos na “gaveta” e um deles se não estou enganada prende-se com o futuro dos actores e o seu bem-estar. Fala-me um pouco deles. Tens sentido que há apoio no sentido de andar com este e outros projectos para a frente?

J.R. – Os meus projectos estão neste momento em reformulação, tal como eu aliás, que estou neste momento mais concentrado no presente, sem “gavetas”! (risos)

J.D. – A terminar, deixo a pergunta que fazemos sempre no final de cada conversa. O que gostarias de dizer, a quem venha a ler esta entrevista?

J.R. – A de que não tenho a certeza de nada e de que, e nesse sentido, muito do que eu digo ou observo ou nomeio como relevante e estrutural pode e deve ser discutido como um processo em construção e depuramento, como tudo na vida aliás…

O Jornal Dínamo gostaria de agradecer ao Actor João Reis toda a disponibilidade, cuidado e atenção com que nos deu esta entrevista, para que esta fosse possível em tempos de confinamento.

Fotos: Arquivo JD, João Tuna, Marta Hipólito e cedência de João Reis

João Reis (2009)

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