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Radiohead? Temos todo o tempo do mundo

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“The Moon Shaped Pool” 2016.

Algures entre o final do séc. XX e o início do séc. XXI, os Radiohead tornaram-se em mais do que uma banda. Eles são a pedra angular para tudo o que é destemido e aventureiro no rock, onde o trono lhes pertence, sem qualquer contestação, mas onde nunca assumem esse status, talvez por desprezo à forma como a indústria se moldou.

RadioheadA pouco menos de um mês de mais uma vinda a Portugal, para uma actuação já esgotadíssima no NOS Alive’16, os Radiohead carregam o peso de um património musical e literário que muito poucos se aventurariam a trilhar e “The Moon Shaped Pool” é um pulsar emocional para o ouvinte que deixa de controlar as suas próprias vontades e se deixa comandar pelos mistérios manipuladores da banda britânica.

A experiência em “The Moon Shaped Pool” é visceral e intensa, mas nunca é repetitiva. Há sempre cenários, motivações pessoais e conflitos que florescem das novas dimensões dos Radiohead, que são explorados de forma paranóica e de uma beleza caótica. Onde os arranjos do piano ou a guitarra acústica se assumem como personagens principais de uma peça onde não há elementos secundários.

Em “Burn the Witch” os ingredientes essenciais para nos arrepiar estão lá.
A doentia guitarra que gradualmente vai ficando sombria e que comunica com os elementos orquestrais de uma forma profunda fundem-se numa fórmula perfeita para nos tocar numa condição angustiante que apesar de não nascer da angústia, nos consegue fazer ranger os dentes.
É uma canção que fala das novas doenças sociais que atacam como parasitas a base elementar das civilizações e o MEDO – esse que de uma forma metafórica vai assombrando as sociedades e quer queimar um Islão numa fogueira bem à moda medieval. Remete-nos de uma forma bem directa e para a urgência de falarmos da crise dos refugiados na Europa.

Radiohead Banda

“Daydreaming”, leva-nos à Alegoria da Caverna de Platão, como um refúgio das emancipações e liberdades que não conseguimos granjear no mundo exterior, carregado de verdades irrefutáveis que nos comandam de forma mecânica e sem livre arbítrio.
No universo multi interpretativo dos Radiohead, podemos falar da nossa submissão e dos estados letárgicos no seio dos conflitos pessoais mas também nos levam a uma interpretação política da nossa resignação ao grande institucionalismo das grandes indústrias, que violam e mortificam o meio ambiente e que com a nossa condescendência nos faz alhear das alterações climáticas – “It’s too late, the damage is done” (…) “We are just happy to serve”.

Em “Decks Dark”, a narrativa intensifica-se com o mantra carregado de sons electrónicos que sucedem a uma balada atmosférica inicial. É um mergulho fundo em “The Moon Shaped Pool” que encontra conforto na taciturnidade quase feliz, num rasgo negro e obscuro que alcança “Glass Eyes”, numa explosão de dor que rebenta com todas as costuras.

Este é um disco que acaba por se tornar uma viagem onde não somos nem convidados nem protagonistas, estando ligados a paradigmas niilistas que expõem de forma crua a fragilidade da razão. Prova disso mesmo é “Identik” que desnuda as intermitências dos amores conturbados e do próprio sofrimento dos amores que nunca chegam a ser – “Broken hearts make it rain”, num registo mais pop rock, que os Radiohead gostam de incluir de forma subtil num ou dois temas dos seus discos – “Creep” (Pablo Honey, 1993) ou “Just” (The Bends, 1995).

“The Moon Shaped Pool” é um passo na carreira dos Radiohead onde mais uma vez triunfam na indústria sem nunca se renderem aos encantos do mainstream, como um oxigénio necessário e abençoado onde a fórmula é construída a partir do experimentalismo dos primeiros discos da banda, mas que disserta sobre a perda e a dor sem ser banal.
Um disco intimista e frágil que nos fala da sua própria vivência de Tom York e do processo de destruição do seu casamento de vinte e três anos.

Irrefutavelmente, uma obra-prima lançada após o hiato de 5 anos (“The Kings Limbs”, 2011) que apenas permitiu à banda moldar a perfeição que teremos oportunidade de assistir ao vivo, no dia 8 de Julho, na edição de 2016 dos NOS Alive.

Fotos: NME.com e www.radiohead.com

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