NOS Primavera Sound 2014
| Se dúvidas existissem ainda sobre qual dos melhores festivais no activo em Portugal, o Primavera Sound responde com um simples somos “NOS”.
À parte da charada com o novo naming sponser do festival é inquestionável a qualidade da edição portuguesa do Primavera Sound.
A recepção é logo por si uma surpresa agradável, onde o monstro das filas de espera não é de todo um convidado da festa, uma vez que o evento pautou-se por um cartaz de luxo e foi o epicentro de toda a dinâmica dos três dias de festival.
No decorrer dos dias 5, 6 e 7 de Junho, rumaram ao Porto para assistir ao festival, mais de 70.000 pessoas, reforçando o êxito consolidado na edição de 2013, e revalidando o objectivo de continuar a ser uma referência no espectro da música alternativa de Portugal e da Europa.
Segundo a Organização do Festival, o NOS Primavera Sound conquistou um público proveniente de mais de 40 países diferentes, tornando-se uma aposta ganha da Organização, da NOS e demais patrocinadores, assim como da Câmara Municipal do Porto, que tem um papel fundamental na promoção do festival, projectando o nome do Porto na Europa e em todo o Mundo.

A euforia do primeiro dia
Pelas 16H30, o sol raiava em todo o seu esplendor na pacata tarde de 5 de Junho no Parque da Cidade do Porto, quando os primeiros festivaleiros começaram a chegar, a instalar a sua toalha de piquenique (oferta da organização) e a desfrutar de uma cerveja, enquanto aguardam pelos primeiros acordes dos “Os da Cidade”.
Este grupo, composto por António Zambujo, Miguel Araújo (Azeitonas), João Salcedo e Ricardo Cruz, estiveram no welcome drink que pontualmente foi servido no palco NOS pelas 18H00, e que viria a ser o grande salão da festa em todo o festival.
A ainda pequena massa de público, carinhosamente recebeu este projecto que nada mais é do que um grupo de amigos que nos tempos livres se reúnem para trautear umas músicas e que com exímia, tornaram a abertura do festival um momento de descontracção e animação.
Na bagagem trouxeram temas como “Reader´s Digest”, “Culatra”, “Fundo da Garrafa” ou o bem conhecido do público “Pica do 7” que foi o tema de encerramento da curta actuação, onde houve ainda lugar, em jeito de encore, para umas ligeiras variações entre “Dunas” dos GNR e o eterno “Não há estrelas no céu” de Rui Veloso, assim como o sucesso “Anda comigo ver os aviões” dos Azeitonas ou o tema “A Festa”, conto da autoria de Miguel Torga.
O humor cáustico era pontualmente chamado à baila, para em tom de brincadeira lançar umas farpas aos VIP´s, que por aquela hora ainda não ocupavam os camarotes na tenda destinada para o efeito.
No Palco Super Bock, contíguo ao palco principal, ainda “Os da Cidade” terminavam a sua actuação e já se fazia encher o recinto para receber Rodrigo Amarante.
Brasileiro de identidade, mas definitivamente um músico do mundo, Rodrigo Amarante é dono de uma vasta e rica experiência que bebeu ao longo dos anos no variado leque de influências multiculturais sem nunca negligenciar a cultura popular brasileira, fazendo da sua actuação no Porto, um temporário refúgio de intimismo bastante enternecedor.
O ex-Los Hermanos, brindou-nos com o seu mais recente trabalho de estúdio, “Cavalo” e superou as expectativas que tinha para a sua terceira actuação em Portugal.
Considerando que o espaço aberto não propícia grandes emoções, foi agraciando o público com um espectáculo acústico dominado por uma fragilidade emocional que os presentes agradeceram.
Entre “Mon Non”, “Nada em Vão”, o homónimo “Cavalo”, “Irene”, “Cometa” ou o melancólico “Fall Asleep”, houve tempo para um mais dançável e contagiante “Hourglass”, que colocou o público numa morna euforia dançável, que por esta altura guardavam energias para o que ainda estaria para vir.
- OS DA CIDADE
- SPOON
- RODRIGO AMARANTE
- SKY FERREIRA
Já eram umas 19H40, quando por esta altura, já se afinavam guitarras e faziam-se ensaios com a percussão e sintetizadores para que com pontualidade britânica subissem ao palco NOS, os norte-americanos Spoon.
Oriundos dos Estados Unidos e formados na década de 90, os Spoon, pautaram-se por um conceito pop efervescente, com destaque para alguns temas que inevitavelmente se tornaram hinos da banda.
Numa prestação animada em que correram alguns originais dos sete álbuns de carreira, arrepiaram caminho com “Don´t You Evah” do trabalho de estúdio “Ga Ga Ga Ga Ga”, passando por temas de um pop açucarado e bem mais conhecidos, como “I turn my camera on”, The way we get back”, ”Small stakes” ou “Underdog”.
A prestação em termos técnicos e vocais foi muito bem conseguida, não desiludindo mas também não surpreendendo.
A uma velocidade de cruzeiro, o primeiro dia já caminhava para uma noite que viria a ser um pouco ventosa quando pelas 20H40, subiu ao palco a mais recente coqueluche da pop norte-americana, Sky Ferreira, que se estreou em solo nacional.
A luso descendente, que talvez pelo facto de desde nova conhecer bem as luzes da ribalta (recorde-se que Sky Ferreira é uma das manequins mais requisitadas pelas marcas internacionais e é presença assídua em editoriais de moda, das mais variadas revistas da especialidade), tem sido catalogada pelos media internacionais como uma menina rebelde, com dotes para a música, com um percurso conturbado, que feliz ou infelizmente fascina adolescentes e em Portugal não é excepção.
Ainda a nova dama de um glam pop mesclado com alguma electrónica, não tinha subido ao palco e já se ouvia pontualmente gritos de uma histeria moderada, característicos de artistas mainstream, a entoar o nome da artista – “SKYYYYYYYY”.
Sky Ferreira tem sido uma promessa adiada da pop mundial, sendo que desde de tenra idade a música não lhe é alheia, tendo mantido contacto próximo com Michael Jackson, que viria a ser o seu orixá.
Sky iniciou a sua carreira, através das redes sociais, onde manteve desde muito cedo o perfil no MySpace activo, lançando demos, que acabaria por despertar a atenção da dupla sueca Bloodshy&Avant.
Com o EP “Everything is Embarassing” lançado em 2012, foi considerada uma das grandes revelações do ano e o single um dos melhores de 2012 pelo New York Times, motivos mais que suficientes para que no ano seguinte, editasse o primeiro álbum de estreia “Night time, My time” que naturalmente foi o mote para a sua actuação no Palco Super Bock do Primavera Sound 2014.
Os primeiros minutos da entrada em palco não foram os mais satisfatórios, alegadamente por problemas técnicos com a cabine de som que a artista reclamava mas depois de oleados, “24 Hours” começou por arrancar os primeiros refrões vindos do público (o tema em questão remete-nos para a banda sonora ao estilo da série “Gossip Girl”).
Sucede-se um Jesus japonês, denominado por “Omanko” e um desbobinar de temas do primeiro trabalho, com destaque para “I Blame Myself”, “Heavy Metal Heart”, e “Boys”, tendo feito pelo meio uma visita ao tema do seu primeiro EP “Lost in my bedroom” e a encerrar os mais interessantes e orgânicos “Everything is Embarassing” e “You´re not the one”.
Na generalidade a artista é competente no que respeita à sua actuação musical, não existindo grandes gaps para os temas em estúdio vs ao vivo. No entanto existem arestas por limar e bastantes problemas de empatia com um público que estava mais sedento de Sky Ferreira.
Timidez, género ou identidade por encontrar, Sky não é uma artista que encha um palco e tem um longo trabalho de casa para fazer de forma a emocionar o público nas suas actuações ao vivo, tendo ficado a sensação de que a prestação poderia ser encorpada por uma atitude mais de artista e não de discípula de um banal “I don´t give a damn”.
Quiçá o facto de Sky Ferreira ter vindo fazer as primeiras partes dos concertos da artista e amiga, Miley Cyrus, criem nela tarimba suficiente para poder proporcionar um espectáculo que justifique os gritos histéricos dos fãs.
- CAETANO VELOSO
- HAIM
- KENDRICK LAMAR
“Abraçaço” do Brasil com Amor
E porque nos palcos do NOS Primavera Sound, há lugar para a lusofonia e para variedade de estilos musicais, naturalmente a grande multidão que se deslocou ao Parque da Cidade, tinha motivos fortes para estar de pedra e cal a suportar o frio e o vento que já se tinha apoderado do festival.
Invariavelmente à hora marcada, 21H45, Caetano Veloso chegou para dar o “Abraçaço” ao público portuense.
De uma personalidade forte, marcada pelos anos tumultuosos de juventude a braços com uma ditadura militar que emaranhou o Brasil, na década de 60 do século passado e que acabaria por levar Caetano ao exílio em 69, o artista que é detentor de uma serenidade e um espírito de liberdade contagiante, rapidamente conquistou o público, envolvendo os cerca de 25 mil espectadores que se concentravam frente ao palco principal, brindando-os com “Bossa Nova é Foda”!.
Sim, podemos em princípio designar este tema de grotesco, se formos desconhecedores da intensa carreira de Caetano, mas não… tratou-se de uma excelente abertura para um concerto de um artista que não podemos apenas considerar com um mero cantor ou um trovador de histórias, mas antes uma instituição que emana cultura e experiências, onde a voz irrepreensível e inconfundível, é o condutor de uma sempre inconformável crítica contra os hábitos dos núcleos do poder instituído em metáforas subtis para chegar a uma mensagem objectiva.
Sucederam-se temas de carreira que naturalmente enterneceram todo um público que acompanharam Caetano, num coro espontâneo e devidamente afinado.
Naturalmente os seguidores fiéis, já conheceriam o alinhamento, que em tudo é semelhante ao último disco “Multishow ao vivo Caetano Veloso Abraçaço”.
Pessoalmente, achei a actuação de uma qualidade acima da média, e apreciei com bastante interesse temas como “Triste Bahia”, “Parabéns”, “Estou Triste”, o “Sambável” “Escapulário”, “Odeio Você” e o ainda e bem animado “A luz de Tieta”.
A noite não estava completa e após aplausos vigorosos, Caetano Veloso cedeu e brindou o “NOS” ao som do seu épico “Leãozinho” que fecharia a noite com chave de ouro.
Time to “Days are Gone”
Se no primeiro dia, fui com a ideia quase inocente de me sentar na relva com um pequeno bloco de notas, fazendo pequenas observações sobre as actuações a que assistia, rapidamente substitui esta postura e desloquei-me para a frente do Palco Super Bock, para assistir ao concerto mais aguardado por mim neste primeiro dia do NOS Primavera Sound.
As Haim, são para mim a música do despertador ao qual dia após dia incrimino por serem contributo de boa parte da minha boa disposição quotidiana.
Este trio de irmãs, que rejeitam a estampagem de girls band, oriundas de Los Angeles é composto por Danielle, Alana e Este.
Com influências no pop dos anos 80 dos Fleetwood Mac, mas com uma nova roupagem que mistura R&B e Destiny´s Child, atraíram uns bons milhares de fãs e curiosos que tornaram o espaço do Palco Super Bock pequeno para o concerto.
O álbum de estreia “Days are Gone” editado em 2013, foi naturalmente a trama do concerto e temas como “Falling” ou “Don´t Save Me” eram naturalmente expectáveis nesta que foi a primeira grande actuação em Portugal.
Já passava da meia-noite e meia, quando as três irmãs em conjunto com a banda de suporte, subiram ao palco e abriram com “Falling”.
Num registo mais rock´n´roll, as guitarras foram a peça fundamental do concerto, seguindo pelo tema “If i could change your mind”, estes que são exemplos de excelente qualidade e de revivalismo dos 80´s.
Houve lugar ainda para uma boa dose de rock protagonizada por um solo de guitarra que Danielle Haim desempenhou meticulosamente.
Como é da praxe, lá surgiu uma saudação em português. Este Haim foi a anfitriã do banquete, tendo interagido bastante com o público que a acompanhou em uníssono em temas como “Honey&I” ou “My Song 5”, devidamente intercalada entre a percussão (a cargo de Alana Haim) e a guitarra de Danielle Haim.
Pelo meio do concerto desfilaram temas como “Save Me”, “Forever” ou “The Wire”, que transformaram o álbum de estreia num sucesso mundial de vendas.
Destaque ainda para uma natural homenagem a uma das bandas de referência, Fleetwood Mac, com “Oh Well”.
A fechar o repasto faustoso das Haim, mas num registo mais obscuro com uma boa dose de percussão, deixaram-nos “Let Me Go”, ficando assim encerrada a actuação mas com uma notória satisfação estampada na cara dos presentes.
Kendrick Lamar: entre o Desconhecimento e a Surpresa
Não posso deixar de referir uma das características das quais já falei anteriormente relativamente ao NOS Primavera Sound que é sem dúvida o cartaz forte de 2014.
É importante destacar a grande diversidade de géneros que o festival alcança, abrindo o leque a gostos musicais muito diferentes que tornam o festival internacional, inter-geracional, do qual o primeiro dia foi o exemplo.
A probabilidade de num só dia e no mesmo festival vermos actuações de Caetano Veloso e Haim até podem não ser tão improváveis, mas quando juntarmos o rapper Kendrick Lamar… isso é explicável.
Considerando o meu quase total desconhecimento em relação ao género Hip Hop, preferi tentar estar alheio ao facto de no Primavera estar também um artista do género. Contudo e como o preconceito é inimigo da cultura musical, decidi dar uma oportunidade ao norte-americano, que estranhamente para mim não traria ao festival os típicos seguidores do movimento Hip Hop, envergando as calças largas, t-shirts manga cava e bonés com símbolos de clubes de basebol.
Lancei-me assim numa pequena investigação dos trabalhos de estúdio do rapper norte-americano, tendo acabado por fazer download em modo offline no meu spotify móvel, de alguns temas mais ouvidos e o álbum completo “Good Kid, M.A.A.D City”.
E porque não gosto de nadar em mar onde não conheço a corrente, apenas tenho referir que o concerto me surpreendeu pela positiva, não havendo grandes apelos às típicas e manifestas e incitações à violência urbana que tanto povoam o género mas que acabam por ser uma indissociável influência para as letras das músicas.
Destaco com simpatia e até algum entusiasmo os temas que mais me agradaram “Bitch, Dont Kill My Vibe” e o entusiástico “Swimming Pools” que colocou o público em êxtase.
Fotos: Hugo Lima – NOS Primavera Sound








