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João Paulo Simões, Realizador de Cinema

Entrevista

O Jornal Dínamo®, já teve oportunidade de entrevistar em primeira mão o realizador português radicado em Inglaterra, onde falámos dos seus projectos. Agora e passados alguns anos voltamos à conversa com João Paulo Simões, que nos falou do seu mais recente trabalho “Mercy” e sobre outros projectos em que está envolvido.

Sentados na esplanada do Príncipe Real, no coração de Lisboa e num belo dia sol ficámos a saber todas as novidades.

J.D. – Fala-me deste teu novo filme “Mercy”.

J.P.S. – O ponto de partida do “Mercy”, enquadra-se um pouco no teatro do absurdo. Existem duas personagens num espaço fechado, uma que perdeu a filha e outra que diz que é a filha e a mãe não a reconhece. O desafio deste projecto foi tornar esse conceito absurdo em algo credível. As actrizes foram incríveis e importantíssimas neste filme.

J.D. – É a primeira vez que trabalhas com a Jude Calvert-Toulmin e com a Ruth Herbert?

J.P.S. – Sim, é a primeira vez que trabalho com estas duas actrizes. Elas conheciam-se e uma acabou por trazer a outra. Em relação à actriz mais velha a Jude Calvet-Toulmin, falei com ela e com o marido e perguntei-lhes se queriam fazer de marido e mulher (separados), no filme. Ou seja no filme ele faz o papel de pai ausente. Na vida real eles são também um casal, no filme desempenham o papel de um ex-casal.

A Ruth Herbert, é uma actriz mais nova que faz teatro e muitas performances, mas nunca tinha feito nada em frente a câmeras, mas dominou completamente as cenas em que aparece. Apesar do filme ser o nome da personagem mais nova e é também o nome do próprio filme, a espinha dorsal é a mãe, porque é ela que carrega o filme às costas, e a actriz Jude Calvert-Toulmin conseguiu encontrar uma série de pontos de referência na sua própria vida para chegar aos sentimentos reprimidos e exacerbados para os quais trabalhámos.

J.D. – Falando agora um pouco mais da ideia conceptual, como surgiu a inspiração para este filme?

J.P.S. – Este filme nasceu da combinação de duas ideias que tinha já há algum tempo. Uma delas assenta na história de um casal separado cuja filha desapareceu e todos os anos no aniversário da filha, eles encontravam-se e faziam amor. A outra ideia é a de uma rapariga que aluga um quarto na casa de uma mulher, cuja filha está desaparecida e quanto mais a senhoria confessa coisas da sua vida, fica-se a perceber que essa rapariga absorve a história e diz ser ela a filha desaparecida e a mãe não a reconhece. Aqui fica-nos a ideia de que a relação entre as duas seria conturbada. Claro que uma mãe iria sempre reconhecer uma filha, mas aí é que entra o absurdo. Partindo destas duas ideias nasceu “Mercy”.

mercyJ.D. – Quanto tempo levou a fazer este filme, “Mercy”?

J.P.S. – O filme tem meia hora, mas as filmagens levaram cerca de seis dias com algum tempo de ensaio, num espaço de duas semanas. Foi filmado em Shefield, e assumidamente lá porque quis absorver o ambiente e a arquitectura de uma cidade que foi industrial. Quis incluir muito do que o industrial tem, que é um ambiente cru, enferrujado e onde existia uma função específica e hoje em dia está a emergir uma força maior. Posso dizer que o filme tem algo de sobrenatural. No DVD que saiu do filme, a Jude Calvert-Toulmin, dá uma entrevista onde aborda esse lado de terror que o filme tem sem nunca se assumir como terror, precisamente pela ambiência, pelo que os sons daquela zona sugerem, pelo design, pelas atmosferas e arquitectura. Posso dizer que estou bastante orgulhoso com alguns dos detalhes que consegui em termos de tons. Há um detalhe que implica um piano que me agradou muito. Quando virem o filme, penso que vão entender esse detalhe. Musicalmente falando o filme volta a ter a colaboração dos Sieben com quem trabalho com regularidade a fazer videoclipes para esse projecto e os quais fazem músicas originais para os meus filmes.

J.D. – Para além deste filme, vieste agora a Portugal para realizar também um documentário. Fala-me um pouco deste projecto.

J.P.S. – A última vez que cá estive foi por causa das filmagens do “Lust – The Power Supreme” do músico Ithaka. Começaram em Inglaterra e continuaram em Junho cá em Portugal, o qual está ainda em produção.

Agora sim, a minha vinda prende-se com um documentário que me pediram para fazer. Trata-se da história sobre um jovem estudante de engenharia que cometeu suicídio e o trabalho parte da investigação que aborda todos os factos e todos os passos que ele deu até cometer o suicídio, uma vez que ele o planeou dois anos antes. Depois vem a parte da celebração do que foi a vida dele. Este rapaz deu muito a muitas pessoas, apesar de ter morrido com 19 anos. Era uma pessoa altruísta, ao ponto de, as razões que o levaram a suicidar-se, ele próprio as relegar para segundo plano. Ele deixou inclusive muitas pistas, coisas escritas e uma carta de despedida. Os pais e a família tinham consciência das ansiedades e dos medos dele, em relação à possibilidade de ele ter herdado certos problemas mentais que existiam na família, dentro dos parâmetros da esquizofrenia. Como ele era uma pessoa que estava constantemente a auto-analizar-se ao ponto extremo de isso não o fazer avançar na vida chegou ao ponto de ter planeado ao detalhe a sua morte. Era uma mente brilhante e diferente em termos de postura. Este rapaz estudou inclusive a forma mais infalível de se matar e não falhar que foi o enforcamento.

A estrutura do documentário era para ser um video do registo de um encontro que vai acontecer, de pessoas que lhe eram chegadas no dia do aniversário dele (se fosse vivo faria daqui a uns dias 21 anos), mas depois acabou por evoluir dessa reunião em que as pessoas poderiam ter a possibilidade de dizer o que quisessem sobre este rapaz para a câmara, para algo mais elaborado onde eu acabei por visitar o local em que ele se suicidou (essa parte já filmei) acompanhado do pai que explica como tudo aconteceu, desde o primeiro momento que leu a carta até que foi à sua procura.

O documentário, apesar de ainda não estar definido deverá chamar-se “A Vida é Simples”.

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