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Hugo Girão, Escritor

Paula T – Quem é o Hugo Girão?

HG – Hugo Girão é neto de fadistas (Fernando de Freitas, primeiro guitarrista de Amália Rodrigues e Maria Girão, baiana radicada em Portugal, também ela intérprete do fado) e filho do músico Fernando Girão (músico, produtor, cantor, compositor). Nasceu em Lisboa, em Novembro de mil novecentos e setenta e cinco. Casado, pai de dois filhos, tenta ser hoje melhor ser humano do que ontem e, amanhã, melhor do que hoje.

PT – Como surgiu a escrita na sua vida?

hugo_giraoHG – Vivi rodeado de pessoas que cultivaram em mim o interesse pela arte (mundo onde nem tudo o que brilha é ouro, verdade seja dita). No entanto, é em Madrid, no final dos anos oitenta, quando, finalmente, descubro a necessidade de transpor para o papel todas as minhas pueris preocupações em relação ao mundo e à vida. O meu pai tem também parte de “culpa” visto que todas as quintas-feiras, eu e os meus irmãos, éramos obrigados a apresentar o que intitulou de “Trabalho Intelectual” onde qualquer texto, poema, ideia, guião, frase ou relato, tinham cabida. Lembro-me que o meu primeiro texto contextualizava a preocupação do personagem cinematográfico, interpretado por Sylvester Stallone, Rambo, em construir uma cabana no meio de um bosque para fugir das guerras. A partir desse momento nunca mais parei. Desde então, corpo e mente sentem a imperiosa necessidade de transformar os estados de alma em palavras.

Volto para Portugal e desentendo-me do mundo da arte (creio que o mais correcto é mesmo dizer zango-me), sem nunca esquecer os meus estados de alma, os quais emoldurei em cadernos aos quais só eu tinha acesso. Estava farto de assistir à persistente luta do meu pai por tentar mostrar o seu trabalho (que se afastava e continua a afastar-se dos cânones estabelecidos) e ser tratado como um desviado, um extraterrestre. Apenas mantive contacto com a música, por razões óbvias, mas sempre como ouvinte ou espectador.

No entanto, no ano de 2004, quando voltei para Espanha, desta feita para a cidade de Zamora, onde actualmente resido, empurrado por uma série de pessoas que tive oportunidade de conhecer através da Internet e após a leitura (entre outros) de “O Cavaleiro da Armadura Enferrujada” de Robert Fischer, decido escrever o meu primeiro livro, “O Rei e o Homem que Já Tinha Sido”, editado pela Papiro Editora no ano de 2006. A partir desse momento decidi que esse era o trilho que queria seguir até ao resto dos meus dias.

PT – No seu livro “O Silêncio dos Teus Olhos” há uma alusão à eternidade. O Hugo crê na eternidade? Fale-nos um pouco sobre isso.

o_silncio_dos_teus_olhosHG – Como espiritista que sou, não só creio como tenho a certeza, absoluta, de que a eternidade existe porque, se assim não fosse, a vida, tal e como a conhecemos neste plano, estaria desprovida de lógica. Passo a explicar: acredito no espírito como o princípio inteligente, antecessor ao corpo; acredito que as várias passagens (pretéritas e futuras) por este e outros planetas, sob as mais diversas formas de vida (reencarnação) ajudar-nos-ão na conquista, paulatina, dos verdadeiros conceitos da felicidade, através dessa grande arma chamada conhecimento. Mas falo de uma eternidade activa, nunca passiva ou contemplativa. Se assim não fosse, para que serviriam tantas provas e expiações e consequente sofrimento?

Em todos os meus livros (“O Rei e o Homem Que Já tinha Sido”, “O Silêncio das Almas”, em co-autoria com Isabel Fontes, “O Silêncio dos Teus Olhos”) o “outro” lado está sempre presente; não é um capricho, é, simplesmente, a veemente convicção de que a interacção entre o plano terrenal e o plano espiritual é, na verdade, o que comummente chamamos eternidade.

PT – Ao ler “O Silêncio dos Teus Olhos”, numa primeira análise, parece um livro que homenageia a mulher, no entanto, fazendo uma análise mais cuidada, pareceu-me que o propósito da estória é também chamar a atenção para os sentimentos do homem que (não querendo revelar spoilers) na perda de um filho através de um aborto, são relegados para segundo plano, uma vez que a mãe atrai todas as atenções e é ela que parece ser a única a necessitar de cuidados.
Concorda comigo?

“O Rei e o Homem que Já Tinha Sido”HG – A magia da escrita reside nos vínculos que estabelecemos com os personagens. Todas elas, na construção de uma história, têm – pelo menos no meu caso – uma parte de mim. Quando dito projecto finda, as personagens roubam-nos parte do que somos. Partilhando e sublinhando as palavras da minha amiga virtual e escritora Julieta Ferreira, quando as personagens pertencem aos leitores impõem-se por si mesmas e ganham outros rasgos de personalidade intrínsecos em cada um. Isto para dizer que, sim, que estou de acordo quando afirmas que os sentimentos do homem desta história são importantes, plasmados com o intuito de dotar de relevância, merecida, a força anímica e a inteireza que só uma Mulher sabe ter.

PT – Onde busca o Hugo a sua inspiração para a escrita?

HG – As ideias surgem do todo ou do nada, do caos ou da quietude; a inspiração surge de uma frase, de um acorde de uma música, de uma situação, real ou não, de um lamento, de um olhar, de um sorriso, de uma situação, de uma notícia no Telejornal, de uma entrevista na rádio ou numa qualquer revista ou meio de comunicação, de um sonho, de uma cena de um filme ou de uma obra de teatro. No entanto, e apesar da relevância de todas elas, a verdadeira inspiração provém daqueles que convivem comigo e têm a coragem e valentia de me aturar: a minha mulher e os meus filhos.

PT – Para quando um novo livro?

o_rei_e_o_homemHG – Se tudo correr bem, no final do ano estará disponível o meu novo romance, graças à valentia e carinho da minha editora, a Fronteira do Caos Editores, que têm desempenhado um papel fundamental, no meio de uma conjectura anímica e económica desfavoráveis, como rampa de lançamento de novos autores portugueses.

PT – Quais os seus escritores de eleição e em que medida estes o influenciam na sua escrita?

HG – Pramoedya Ananta Toer é, juntamente com Robert Fischer, Antoine de Saint Éxupery, Mathias Malzieu, Paulo Coelho, Florbela Espanca, Fernando Pessoa, António Aleixo, Carlos J. Barros, João Pedro Martins, Luís Filipe Sarmento, entre tantos outros, alguns dos escritores e poetas que me marcaram até hoje. Quanto à influência na minha escrita, creio que, mais do que qualquer escritor (apesar de ser uma importante variante), é a nossa memória histórica (os nossos estados de alma, pretéritos e presentes) que nos impelem a escrever sobre um determinado tema, de uma determinada forma.

PT – Acha que hoje em dia é mais fácil publicar em Portugal do que há uns anos atrás? Se sim, a que acha que se deve esta mudança?

HG – Conheço as dificuldades do mercado desde que em 2005 iniciei a busca de uma editora para o meu primeiro livro, “O Rei e o Homem Que Já Tinha Sido” (Papiro Editora) por isso não tenho uma opinião formada a esse respeito. Neste momento, em Portugal, como em qualquer parte do mundo, proliferam as editoras que trabalham com o sistema de co-edição o que, em parte, facilita o salto para os escaparates de um escritor, sem que essa condição seja garantia de divulgação e/ou sucesso. Tenho a sorte de estar no catálogo de uma editora de prestígio que aposta em mim pelo meu trabalho e não pelo tamanho da minha carteira.

PT – Que importância atribui à blogosfera literária?

sillencio_das_almasHG – A blogosfera é, sem dúvida, para um escritor que, como eu, começa a dar os seus primeiros passos, um meio de divulgação fundamental. Apesar de estar nas estantes das livrarias, as editoras mais pequenas não têm o desempenho económico necessário para organizar grandes campanhas publicitárias, o que leva os escritores novéis a estarmos longe dos grandes meios de comunicação social, situação que dota a blogosfera de uma preponderância inigualável, transformando-a numa ferramenta idónea e imprescindível para uma aproximação rápida e duradoura com o grande público que, cada vez mais, utiliza as redes sociais e os blogs de literatura como referência, visto estarem desamarrados das pressões e políticas dos grandes grupos.

PT – Hugo, dê-me o nome de um livro que o tenha marcado desde sempre e uma cidade, pela qual, nutre um carinho especial.

HG – São mais do que um, desculpa (risos). “O Principezinho” de Antoine de Saint Éxupery, “O Cavaleiro da Armadura Enferrujada” de Robert Fischer e “A Rapariga de Java” e “Esta Estranha Terra”, ambos de Pramoedya Ananta Toer.

As cidades, por diversas razões, são duas: Madrid, onde passei da puberdade à adolescência e Loulé, por ser acolhedora e por me brindar a oportunidade de conhecer grandes pessoas que se tornaram grandes amigos e que, mesmo “castigados” pela distância, perduram no tempo e na alma.

PT – A Equipa do Destante agradece e deseja-lhe tudo de bom.

HG – Um verdadeiro privilégio conceder-vos esta entrevista. Grato pelo vosso interesse em divulgar-me, não só como escritor, mas também como pessoa; grato por investirem a maior parte do vosso tempo livre na leitura e divulgação do trabalho dos que, como eu, tentam arranjar um lugar cativo neste fantástico Universo chamado Livro.

LUZ… SEMPRE… NOS NOSSOS CAMINHOS… ASSIM SEJA.

Fonte: destante.blogspot.com
Fotos: destante.blogspot.com

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