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Mário Máximo

Entrevista

 | Em muitos anos de convivência e alguns livros depois, eis que as sinergias se criaram para uma entrevista, que provavelmente teria mesmo de ser feita no momento presente.

A dias do lançamento de mais um livro, desta feita um romance com o título “O Diário dos Silêncios”, o Jornal Dínamo teve o prazer de entrevistar o autor que conta já com 23 obras editadas.

J.D. – Como nasceu este amor pela escrita?

M.M. – Nasceu muito cedo. Na escola eu já identificava, que de uma maneira geral era bom aluno a todas as disciplinas do 1º ao 4º ano, mas quando fazia redacções ou outros textos escritos, sentia-me como peixe na água.
Quando a professora anunciava que naquele dia se iria fazer uma redacção eu delirava, se para além disso me diziam que o tema era livre, aí eu ficava felicíssimo. Comecei a escrever muito cedo. Escrevia e pensava como escritor, também porque lia muito por influência do meu pai e tinha uma grande capacidade de fixar, o que era maravilhoso (hoje já não tenho tanto), mas ainda mantenho alguma dessa capacidade.
No ciclo preparatório eu chegava a saber os livros de cor, as páginas onde se encontravam as matérias e como dava as respostas tal e qual como lá estavam, os professores achavam que eu copiava (risos), mas depois quando me perguntavam, eu dizia tudo e então eles acreditavam que eu sabia mesmo.
A partir dos meus 14/15 anos, comecei a perceber, que o que eu gostava era de ser escritor e comecei a escrever essencialmente poesia, se bem que curiosamente eu que não sou pessoa de muito prémios ganhos foi com a prosa que ganhei um. Se me recordo em 1976/77, aconteceu um concurso com o tema “O que aconteceu na minha vida”, onde se deveria escrever uma história que tivesse acontecido nos últimos 50 anos. Então eu escrevi uma história sobre o meu irmão antes de ele partir para a guerra colonial. Ele partiu em 1973 e quando veio de lá (de Angola) acompanhou as colunas do FMLA, UNITA e MPLA, o que não foi fácil, nem uma coisa nem outra. Resolvi então, escrever acerca desses dias e ganhei o prémio no valor de 19 contos, que na altura era um dinheirinho jeitoso.
Mas sim, cedo senti que havia um apelo pela literatura e que tinha muito a ver comigo.

J.D. – O seu primeiro livro foi de poesia, tendo depois experimentado a prosa com o seu primeiro livro “A Ilha”. Como aconteceu esta passagem? Foi algo natural ou algo que desejava fazer?

Mário MáximoM.M. – Como contei, com tenra idade, ganhei um prémio com um conto e portanto “prosa”, mas é curioso que a minha opção pela poesia, é mais uma inclinação pela mesma. Ou seja acabam por ser coisas diferentes. 
Quando apareceu pela primeira vez nas minhas mãos, um livro de Álvaro de Campos, teria eu aí uns 16 anos, alguma coisa efectivamente mudou em mim. Eu li e fiquei fascinado. 
Há uma segunda situação que se passou no Jornal “República”, na altura quando havia suplementos literários (o que hoje há muito pouco), eu apanhei uma tradução magistral do Mário Henrique Leiria de uns poemas (uns cantos) do Ezra Pound, que apesar de ser um assumido fascista e eu assumidamente de esquerda (antes do 25 de Abril já o era), me fez ser fascinado pela sua escrita. Em termos de liberdade e com uma ideologia que era aquilosante da liberdade, era um indivíduo que em termos literários assumia uma liberdade total e quem conhece a obra dele sabe do que falo. Claro que não gosto de tudo, aliás como é natural com outros autores. É difícil gostarmos da obra integral de um autor, pelo menos da mesma maneira. Por exemplo eu gosto muito de Vítor Hugo, e li quase tudo deste autor, mas gosto mais do romancista Vítor Hugo do que do poeta Vítor Hugo.

Mas respondendo à sua pergunta, essas duas leituras, Álvaro de Campos e Ezra Pound, nasceram comigo e levaram-me a começar a escrever com muita regularidade e com vontade de editar poesia. Esse foi o momento quantitativo que gera a mudança qualitativa. E foi mesmo por esse caminho que segui.

J.D – Falemos então um pouco deste seu mais recente trabalho “O Diário dos Silêncios”. De que silêncios nos fala neste romance?

M.M. – Bom, a intimidade é feita geralmente de silêncios, quer no contexto social, quer até no contexto mais pessoal. Mesmo quando a entrega é muito intensa, há um pudor entre ambos. Nunca ninguém diz tudo. 
Hoje por exemplo, passei numa montra e vi a capa de um livro que me prendeu a atenção, com uma senhora vistosa na capa, mas achei piada ao título que era qualquer coisa como “Nunca devemos contar tudo aos Homens” (risos) e eu ri-me claro, pela forma como estava colocada a questão, até porque na verdade, ninguém conta tudo, partindo do princípio que sabemos contar tudo o que sentimos.

Eu diria que há planos, em que todos por mais capacidade de expressão que tenhamos e de auto entendimento e reconhecimento, teremos sempre dificuldade em explicar um conjunto de coisas, porque a intimidade, o amor e sobretudo a paixão baseiam-se exactamente num conjunto de contradições e às vezes aquilo que é supostamente contra aquilo que nós defendemos, é aquilo que nós fazemos. É por isso que se dá aquele sentimento de entrega e de procura relativamente a outra pessoa ou a um outro corpo. Não nos podemos também esquecer da vertente espiritual que é indissociável do corpo. A diferença que existe é a gradação das duas coisas.

Nós nunca devemos querer saber tudo, só devemos querer saber o que é essencial num dado momento.

J.D. – Estas personagens que nos apresenta são pessoas reais ou fictícias? Inspirou-se em alguém que conhece ou só as imaginou?

M.M. – Eu mentiria se dissesse que não há uma parte de realidade num conjunto de situações, que estão descritas neste livro. Mentiria também se dissesse que é a transcrição to cour de um relacionamento, o que não é verdade. Há aqui uma conjunção de momentos e depois uma coerência que considero romanesca, que eu tentei apanhar do princípio até ao fim.

No caso do conto que escrevi e do qual lhe falei no início, ele era sobre o meu irmão mais velho (que ainda hoje está vivo e está bem) e sobre aquela que ainda hoje é a mulher dele. Este foi um facto real.

J.D. – Os assuntos nos quais se detém, têm de uma maneira geral sempre temas que tocam o amor, o carinho e a paixão. Estes são sentimentos gratos para si?

M.M. – Eu tenho uma visão da vida que passa por considerar o romance, como uma palavra absolutamente incontornável (o romance no seu sentido mais amplo). 
Há três palavras que para mim são essenciais (o romance é uma palavra à parte): Liberdade é a primeira palavra e que é essencial na minha literatura. O meu dicionário não começa no A, começa no L de Liberdade e depois vem o Amor. Para haver amor perfeitamente entendível, tem de existir liberdade (no seu sentido mais lato). A terceira palavra é o Social. O factor de comunicação é o equilíbrio do relacionamento entre as pessoas. 
As duas primeiras são uma vertente mais pessoal e a outra é a vertente em que todos nos inserimos. O Romance é paralelo, porque está aqui a divagar entre cada uma das outras coisas. Este livro acaba também por tocar nisso. A questão da liberdade é tão forte que o livro termina com alguém a reconhecer que não tem liberdade (só para levantar um bocadinho a pontinha do véu).

J.D. – Perguntava-lhe se tem uma preferência, Prosa ou Poesia?

M.M. – Neste momento o que poderei dizer acerca desta pergunta… 
Bom, a poesia acompanha-me para todo o lado onde vou, mas cada vez me sinto mais prosador. Não sei qual vai ser a evolução que tudo isto vai ter, mas presumo que a poesia nunca me irá abandonar.
Quando na minha vida tive problemas mais interiores, a poesia sempre me acompanhou e sem exagerar eu direi que me salvou a vida. A poesia foi a ligação que eu mantive com o sonho e com a vida, naqueles momentos em que pensava: “espera que as coisas estão a correr muito mal, mas há qualquer coisa de espantoso e belo em viver”. 
O romance ou diria a ficção romanesca, é um fascínio tremendo que tem a ver com o facto, de ter na cabeça todas as personagens dos meus romances. Todos os meus livros de prosa, se se quisesse podia começar a escrever os seguimentos dos mesmos. Há uma dinâmica mas não há uma trama que seja decisiva.
A vida é por excelência uma narrativa aberta, tal como o amor. Nunca nenhuma relação está absolutamente resolvida, o que aproxima umas pessoas e afasta outras.

J.D. – No seu entender e falando de cultura, considera que se fala suficientemente de poesia ou é uma área que deveria ser mais aprofundada e divulgada? Dado o nosso historial de poetas e poetisas.

M.M. – Esta questão é importante, mas tenho de começar por dizer uma coisa que é obvia e que toda a gente sabe. Portugal tem essa característica que é o de ter um poeta como seu mais digno representante. Não sei se existe, outro país que tenha um poeta tão dentro da sua alma. Geralmente são mais conquistadores, navegadores, mas se existe e até podia dar o exemplo de William Shakespeare, mas não é a mesma coisa. Temos na nossa história (até antes do 25 de Abril), quem tivesse ideias sobre Camões e por exemplo de Fernando Pessoa, e depois desta data, já outras ideias. Na verdade Camões e Fernando Pessoa, são os dignos representantes de Portugal. Dizer que um é mais importante que o outro é absurdo, mesmo achando que a nível de valor até se poderiam equivaler.
Eu escrevi um livro sobre Camões, mas poderia ter sido sobre Fernando Pessoa (se calhar um dia destes acontecerá (risos), nunca se sabe, mas há uma razão para ter escrito sobre Camões. 
Este autor tem algo que me fascina. Na altura ele terá sido um dos poetas com mais sensibilidade e daqueles que mais viajou (as pessoas mais viajadas eram as que tinham permissão), como por exemplo os marinheiros ou os capitães das armadas. Ele realmente viajou muito e na altura não era muito normal isso acontecer. 

Fernando Pessoa foi o contrário, foi para Durban muito pequeno (Costa Leste da África do Sul) e voltou mais ou menos adolescente e depois até chegar a Sintra, já era difícil para ele. 
Fernando Pessoa é uma lúxuria de interioridade. Luís de Camões é uma lúxuria de exterioridade. Acho que na próxima reencarnação vou escrever uma tese sobre este tema (risos), ou se calhar ainda nesta, porque acho extremamente interessante.

Mário MáximoQuanto à questão que me colocou da poesia. Penso que a poesia nunca será lida como os poetas acham que ela o deveria ser, em termos de quantidade até ou da forma como aqueles que não sendo poetas ou poetisas, entendem que a poesia deveria ser mais lida. Nunca será.

Por definição, a poesia é um nicho da interioridade.

Mas então, dir-se-á: “os temas que o povo canta, são poesia”… ok, não vamos confundir. O povo canta, mas não lê. As pessoas adoram ouvir declamar poesia, mas pegar num livro e começar a ler é uma disciplina difícil. A maior parte não consegue encontrar as suas chaves de leitura.

A prosa em si é diferente, explica-se. É uma história, apesar de muitas vezes a mesma ficar em aberto.

A poesia expande-se, nós tentamos captar, fascina-nos apesar de nem sempre entendermos onde o poeta quer chegar. Cada leitor transforma o livro de cada poeta. Eu costumo dizer que cada leitor de Fernando Pessoa é um novo heterónimo de Fernando Pessoa, só que é um heterónimo/leitor. 
Um poeta escreve a obra, sabe o que sentiu ao escrevê-la e a partir daí oferece-a ao leitor e ela passa a ser aquilo que o leitor interpretar dela. 
Há uma desqualificação, diria surpreendente por vezes incompatível do leitor em detrimento do indivíduo académico ou crítico literário e começam a fazer a sua interpretação muito pessoal, o que leva a que as pessoas possam vir a ler ou não certa obra. Ou seja, há uma atitude de querer constituir cânone em algo que por natureza não é fácil de se aceitar (pessoalmente tenho dificuldade de aceitar um cânone). Neste século é difícil de encontrarmos cânones, ou então podemos dizer que o cânone é liberdade ou seja é a ausência de cânone.

J.D. – A inspiração pode vir de qualquer lado de uma coisa, um objecto ou de alguma coisa específica? ou tem de vir de uma personalidade, ou sobre pessoas que conhece ou mesmo sobre si?

M.M. –  Gosto desta pergunta. Quase ninguém gosta de tocar nesse tema da inspiração. As pessoas têm medo da palavra e até há outras que ironizam com ela. Para mim é um preconceito.

Friedrich Nietzsche, que era um génio do livre pensamento (mesmo não concordando com tudo o que ele escreveu), tem a definição exacta e plena do que é a inspiração, numa das suas obras e foi talvez aquele que melhor falou acerca dela. Ou seja, a inspiração pode vir da exterioridade. Estamos aqui sentados como estamos e de repente entra uma pessoa (eu vou dizer uma mulher, porque dá-me mais jeito)… (risos), e pode-se dar uma sensação, uma emoção que mexe comigo e eu encontrei inspiração para escrever algo. Isto é algo fantástico. A imagem que passei agora com a entrada de uma mulher que me poderia inspirar, poderia passar-se num local com uma paisagem que me passasse uma emoção forte ou um sentimento.

A questão aqui é sentir, porque ver… todos vêem.

Posso contar uma história rápida para explicar este tipo de sentimento. Numa das minhas primeiras acções enquanto vereador da cultura, houve um momento, que na altura me embaraçou imenso e as pessoas não perceberam o que estava a acontecer, estranharam mas ninguém teve coragem de me dizer nada. Foi durante um evento onde uma cantora chinesa de nome Cao Bei, que eu não conhecia, cantou um fado, e fê-lo de tal forma, com uma alma e sentimento que me emocionou e eu não conseguia falar, quando para desgraça minha eu tinha que falar (risos) e como disse, as pessoas não entenderam o que se estava a passar. Acabei por beber um pouco de água, disse umas palavras e fiquei por ali. Foi sem dúvida algo que me transcendeu.

Alguém com uma cultura completamente diferente da nossa, entra dentro do meu coração, cantando um fado em excelente português e com uma entrega tão grande, que faz pensar que tudo de bom que pode existir… pode existir mesmo.

J.D. – “O Diário dos Silêncios” será lançado dia 8 de Maio no Palácio das Galveias. Quem estará consigo nesta apresentação?

O Diário dos SilênciosM.M. – Quem vai fazer a apresentação do meu livro é uma pessoa que já fez a apresentação de dois livros meus de poesia. Apresentou “O Mercador de Utopias”, num lançamento muito engraçado que teve lugar na Livraria “Barata” e apresentou no Grémio Literário, “A Era dos Versos”, tendo sido este o último livro que lancei. Esta será a primeira vez que ele apresenta um romance meu.

Neste momento, tenho 23 livros publicados e tenho de dizer que não é fácil fazer uma abordagem dos temas sobre os quais tenho escrito no seu todo. A Professora Inocência Mata por acaso sabe fazê-lo e escreveu o prefácio para a “Antologia – Poemas Escolhidos – 30 Anos de Poesia” e fê-lo com grande emoção.

Neste caso do “O Diário dos Silêncios”, o Domingos Lobo vai apresentar e a Actriz Elsa Galvão vai fazer uma parceria comigo, dizendo alguns dos textos.

J.D. – A terminar deixamos a nossa pergunta habitual. O que deseja dizer a quem possa vir a ler esta entrevista?

M.M. – Diria que não tenho dúvida alguma que a literatura é a essência do meu trajecto, apesar de já ter feito muita coisa diferente.

A mensagem que deixo às pessoas, é que procurem o belo dentro de si, que não tenham medo dessa beleza, porque se assumirem esse caminho, a imagem que vão transmitir aos outros será sempre linda. Não tenham medo da entrega e da aparente ingenuidade daqueles que sonham. É importante e fundamental sonhar. Eu só posso imaginar, a vida triste daqueles que nunca tenham sonhado.

O Jornal Dínamo gostaria de agradecer ao Escritor e Poeta Mário Máximo pela sua disponibilidade para esta entrevista.

O novo romance de Mário Máximo, “O Diário dos Silêncios”, será apresentado na Biblioteca Central – Palácio Galveias, às 18h30 do dia 8 de Maio. Entrada livre.

Foto: Arquivo JD

 

 

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