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Ruy de Carvalho, Actor

É indiscutivelmente um dos grandes actores de Portugal.

Ruy de Carvalho cujo curriculum é vastíssimo deu uma entrevista ao Jornal Dínamo®, onde falou de amor, de paixão, de entrega e do que espera a cultura em Portugal, no ano em que comemora 85 anos de idade e 70 anos de carreira.

O belíssimo Hotel Riviera em Carcavelos e um fantástico dia de sol, foram o cenário perfeito para uma deliciosa conversa.

J. D. – Quando é que teve a certeza de que o que queria para a sua vida era ser Actor? 

Ruy de CarvalhoRuy de Carvalho – A minha vida de Actor começou muito cedo… penso que já falei bastante sobre isso… ando há 70 anos nesta vida… que é muito tempo e a memória às vezes já não acompanha. Olhando para trás penso… já fiz isto e aquilo… porque há muitas pessoas que ainda não viveram o tempo que eu já trabalhei. Eu tenho 85 anos, tenho uma capacidade de resistir enorme, mas sinto-me admirado comigo, porque quando há pessoas com 60 e tal anos que dizem que estão cansadas e que se sentem velhas, eu pelo contrário não me sinto velho, sinto-me novo. Tenho 18 anos por dentro e sei que estou velho por fora mas não me apetece rejuvenescer de maneiras falsas. A verdade é que vivi muito no meio do teatro. Tive dois irmãos actores. Resumindo um pouco a minha vida, sou filho de um casal de viúvos e os meus pais tinham filhos de um lado e do outro. A minha mãe para além de uma exímia pianista com uma grande categoria (foi aluna de Vieira da Mota. Ele dava-lhe aulas de virtuosismo de graça, tinha ela 17 anos) e portanto ela era uma belíssima pianista. Há uma pianista que eu gosto muito que fisicamente é muito parecida com a minha mãe que é a Maria João Pires, até tinha franjinha como a Maria João Pires tem às vezes. Nunca a conheci pessoalmente e tenho que dizer que seria um prazer que isso acontecesse. Para além disso, a minha mãe também tinha muito jeito para representar. O meu irmão João morreu muito cedo. Quando ele foi embora, era actor do Teatro Nacional e eu tinha 4 anos. A minha irmã, faleceu em 2003 com 93 anos, e eu acompanhava-a muito no teatro. Depois comecei a conhecer as pessoas e entrei no ambiente. Quando entrei para Actor, já havia pessoas que me conheciam. Uns conheceram-me ainda estava eu na barriga da minha mãe e outros porque eu ia lá quando era muito pequenino. Entretanto como o meu pai era Militar e tinha comissões de serviços, estive ausente em África, Évora e Covilhã e foi precisamente na Covilhã que fiz a instrução primária e onde tive como companheiro de carteira, o Alçada Baptista que era um pouco, mas não muito mais velho que eu… ele já se foi embora e eu ainda cá estou. Acho que essa é uma das grandes mágoas da minha vida… muitos dos meus colegas do meu tempo já partiram quase todos. Tenho a Cármen Dolores, Eunice Muñoz e o Joaquim Rosa, mas a maior parte deles foram muito mais cedo embora… é natural é que estejam lá em cima à minha espera para fazer uma companhia (risos), mas eu já chego um bocadinho alquebrado e eles estão cheios de vida ainda para representar muito lá em cima. A maior parte deles ficam gravados para sempre aqui, e isso é muito importante. A nossa profissão é muito importante, e não é tão fácil e tão boémia como as pessoas pensam. Eu, por exemplo, já estou hoje a estudar desde as 7 da manhã, o que pode parecer impossível, e mais daqui a bocado vou estudar outra vez, porque tenho textos para preparar porque devo-o fazer sempre como sinal de respeito pelos autores, porque eles merecem todo o meu respeito.

J. D. – Lembra-se da primeira vez que pisou um palco?

Ruy de Carvalho – Lembro sim. Eu estava na Covilhã e a minha mãe ensaiou a parte musical da “História da Carochinha”, numa instituição que se chamava “Florinhas da Rua” uma obra de assistência à juventude feminina e que era dirigida por uma Senhora que se chamava Domitila Anaquim. Hoje chama-se “Casa do Menino Jesus” e ajuda meninos e meninas. A Sra. D. Domitila um dia pergunta à minha mãe se eu queria fazer um papelinho na peça, e assim aconteceu. Fiz de mosquito e de Ardina. E há uma memória muito engraçada (eu de datas tenho aqui o meu arquivo – risos -, em referência à sua filha que o acompanha sempre). No dia em que pisei o palco pela primeira vez, a Sra. D. Domitila deu-me uma medalhinha pequenina de Nossa Sra. da Conceição que eu com os nervos mordi (risos) … quando entrei em cena dei-lhe a medalhinha. Lá cumpri com o meu papel, vendi os jornais e fui-me embora, satisfeitíssimo porque estava aliviadíssimo de ter representado o papel todo de forma correcta. Mais ou menos, sessenta e dois anos depois a medalhinha foi-me dada, porque a Sra. D. Domitila deixou-a para me ser dada a mim um dia. Eu entretanto fui à Covilhã para ser homenageado como actor e como pessoa que viveu na Covilhã e depois fui à “Casa do Menino Jesus” e foi a neta da D. Domitila que me deu a medalhinha, que eu guardo com um grande carinho, estima e com muita saudade como pode imaginar, porque foi um momento muito bonito. Nossa Sra. é que ficou magoada, coitadinha (risos) … não, acho que ela não se magoa com essas coisas. Eu acho que a boa vivência religiosa é aquela que damos uns aos outros.

J. D. – Imagino que seja difícil eleger uma personagem que tenha “vestido a pele”. Existe uma em especial que tenha feito e que lhe tenha dado, especial gosto pessoal?

Ruy de CarvalhoRuy de Carvalho – O Cego do “Render dos Heróis” de José Cardoso Pires. O Cego não era mais, nada menos do que a personificação do povo português, que depois se transformava num espantalho. Estava a assistir a tudo mas era um espantalho, e aquelas guerras a que ele existia entre os liberais e os miguelistas, hoje em dia em comparação mantêm-se. Às vezes queremos desculpar os governantes, pensando que são mal acompanhados e aconselhados mas quem o é, procura melhor aconselhamento. Eu vivi muitos momentos de vida complicados por causa da censura e de outras coisas, mas hoje em dia ela continua a existir de outras maneiras. Hoje há censuras políticas e religiosas por exemplo, naquela altura havia o “Lápis Azul” e uns senhores que eram estúpidos que faziam isso. Eu não sei onde estou politicamente, mas acima de tudo preocupo-me com o meu semelhante e é isso que me importa. Os papéis que sempre fiz e faço, são feitos com muita humildade mas não com subserviência. Humildade é uma coisa muito bonita e que se mistura com outros conceitos que nada têm a ver com ela. Há conceitos que se baralham muito e a humildade é um deles. É uma capacidade de grande respeito por nós, pelos outros, para aqueles com quem trabalhamos e por aqueles para quem trabalhamos.

J. D. – Este ano que comemora 70 anos de carreira, que papel gostaria nesta altura de fazer que ainda não tenha feito?

Ruy de Carvalho – Agora gosto de fazer aqueles que me dão ou aqueles que me escolhem. A verdade é que já fiz coisas tão bonitas, mas agora a escolha é de outras pessoas. De vez em quando escolhem-me e eu fico feliz. Quando por exemplo querem dar uma lição a alguém, escolhem-me (risos).

J. D. – Mas não é só de teatro que se faz a sua vida. Também já ofereceu e continua a oferecer grandes personagens ao público, no cinema e em televisão. Fale-me um pouco da sua experiência nestas áreas?

Ruy de Carvalho – Agora estou a fazer um empregado de balcão. Já tenho alguma experiência. Já fui dono de um restaurante, um bocado calão pois não fazia nada, mandava fazer tudo (risos), varria a casa sentado (risos).

Esta personagem está-me a dar um gozo imenso, porque ela tem uma grande interferência na vida das pessoas. Ajuda a arranjar empregos e também ajuda a haver melhor relacionamento entre pais e filhos. É uma personagem que está sempre a dar conselhos. Tem uma postura diferente do habitual. Anda de gravata e veste-se muito bem, mas é um homem que diz que não sabe acerca das coisas, mas sabe… Por exemplo, ele agora vai à ópera, coisa que nunca fez e então quer saber pormenores e quer saber se se emociona porque ele vai ver a “La Bohéme” que é uma ópera lindíssima de Puccini.

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