J.D. – Sei também que trabalha com artistas e músicos diferentes. Como é que se chega a trabalhar com pessoas tão diferentes e como é que tudo se processa?
W.B. – Eu tive a sorte de trabalhar com pessoas muito boas, como é o caso do Rui Fachada. Eu conheci-o na faculdade, fomos colegas e por mero acaso tínhamos interesses mútuos em relação ao que fazíamos. E começámos a tocar juntos. Foi assim que tudo começou. Éramos e somos amigos, enveredámos por carreiras diferentes, mas acabámos por interagir. Também foi interessante o trabalho com os Noiserv ou com Márcia por exemplo, mas em suma o que é importante perceber é que cada músico tem a sua personalidade e a sua música. Quando se trabalha no campo da produção, é importante respeitar a música de todos e tentar puxar o melhor de cada um deles.
J.D. – Relativamente aos Noiserv ou por exemplo aos You Can´t Win, Charlie Brown, é produtor e portanto está um pouco do outro lado, digamos que no interior da concepção de um trabalho?
W.B. – Com os “You Can´t Win, Charlie Brown”, por exemplo fiz a mistura do disco. Sim, posso dizer que há um lado meu que é fascinado pelas máquinas e pelo som que é complementar à música mas ao mesmo tempo é independente dela. Adorava os gravadores de cassetes, as mesas de mistura e os microfones e quem gosta de mexer com esse tipo de coisas acaba por amar essas coisas. Isto também tem a ver com a magia da música, porque quem faz música não consegue definitivamente viver sem ela. Mas sem dúvida esse trabalho de produção, mistura, etc… é estar do outro lado. Em relação ao meu trabalho visto vários fatos-macaco(risos), para as diferentes ocasiões. Para isso muito contribuiu o austríaco Jakob Bazora que aqui está connosco, e que foi o meu segundo par de ouvidos e que me ajudou muito a ser mais objectivo. Não é fácil produzir um disco, escrever as canções, fazer os arranjos e ainda misturar e gravar.
J.D. – Deu um concerto, este Sábado em Lisboa. Fale-me de como foi e tem sido a reacção das pessoas a este seu novo trabalho?
W.B. – Tem sido surpreendentemente boa. Eu acho que as pessoas têm gostado no geral, claro que obviamente é impossível fazer-se alguma coisa na vida e todas as pessoas gostar. Ainda não tive reacções más, mas estou à espera delas e penso que vão surgir com naturalidade. Existe sempre a crítica em relação a tudo. Neste momento sinto-me muito feliz com as reacções, e sinto que há uma diferença do meu trabalho até agora (dos que fiz até este novo). Houve um “salto” na reacção, mas penso que isso se deve também ao “salto” que se deu neste novo trabalho e penso que nesse sentido o disco foi bem-sucedido e para mim já é um grande feito.
J.D. – Tem uma noção acerca das pessoas que o ouvem? Qual é o target das pessoas que o vão ouvir?
W.B. – Por acaso há uma mistura grande. Há pessoas mais da minha geração e mais novos, mas também há pessoas mais velhas, o que me deixa muito feliz. No caso deste novo trabalho, ele não é arrojado no sentido de ser uma experimentação sónica que é absolutamente inovadora e o facto de eu ir buscar influencias a outras gerações ajuda a certas pessoas não estranharem demasiado a minha música, só que a própria música tem essa capacidade de tocar às pessoas. Qualquer música provoca uma reacção… boa ou má em todas as pessoas. Prefiro muito mais que uma pessoa tenha uma reacção, a simplesmente ignorar. A busca por novos caminhos é incessante e portanto é uma incógnita o que se vai fazer a seguir, e esse sem dúvida é o grande desafio dos músicos… saber para onde devem ir e o que fazer.
O Rui Fachada de quem já falei aqui, é uma pessoa com uma energia incrível e é uma pessoa que se sabe reinventar de uma maneira excepcional e essa é a coisa que eu mais admiro nele, enquanto artista, porque ele tem uma visão para as coisas e portanto qualquer pessoa que faça arte, tem de ter uma visão do que vai acontecer.
J.D. – Walter Benjamin é também o nome de um Filósofo. O Facto de ter escolhido este nome, quer dizer que um Músico é também um filósofo da música e que tal como um Filósofo, passa a sua vida a estudar?
W.B. – Sim, metodologicamente falando. Um Músico pinta com palavras ou pelo menos o escritor de canções fá-lo. Mesmo quando a música é instrumental, tem sempre ideias por de trás.
J.D. – Em termos das referências que me falou, há outro tipo de sonoridades que gostaria de explorar?
W.B. – Para já sinto-me muito confortável com as sonoridades que estou a explorar agora, porque para já são as sonoridades com que eu me identifico. No entanto não faço grandes planos, porque não sei para onde vou, mas acho que as coisas estão onde deveriam estar. Claro que para quem escreve canções é importante ter ideias e explorá-las e no fundo isso envolve não sei se é um estudo, mas um trabalho minimamente “literário”. Disse literário entre aspas porque não há nenhuma intenção de ser um escritor ou um poeta ou mesmo de dominar a literatura. A literatura é um campo à parte da música. O músico no entanto está sempre a estudar, ele só deixa de o fazer quando morre. Um músico tem de praticar todos os dias, se não o toque desaparece. Nesse sentido há um lado físico. Se o músico tocar, ele tem de treinar os dedos, porque se não deixa de conseguir fazê-lo.
J.D. – O que é que o inspira verdadeiramente?


