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João Paulo Simões, Realizador de Cinema

Entrevista

| O Jornal Dínamo®, já teve oportunidade de entrevistar em primeira mão o realizador português radicado em Inglaterra, onde falámos dos seus projectos. Agora e passados alguns anos voltamos à conversa com João Paulo Simões, que nos falou do seu mais recente trabalho “Mercy” e sobre outros projectos em que está envolvido.

Sentados na esplanada do Príncipe Real, no coração de Lisboa e num belo dia sol ficámos a saber todas as novidades.

J.D. – Fala-me deste teu novo filme “Mercy”.

J.P.S. – O ponto de partida do “Mercy”, enquadra-se um pouco no teatro do absurdo. Existem duas personagens num espaço fechado, uma que perdeu a filha e outra que diz que é a filha e a mãe não a reconhece. O desafio deste projecto foi tornar esse conceito absurdo em algo credível. As actrizes foram incríveis e importantíssimas neste filme.

VÍDEO https://vimeo.com/31320184

J.D. – É a primeira vez que trabalhas com a Jude Calvert-Toulmin e com a Ruth Herbert?

J.P.S. – Sim, é a primeira vez que trabalho com estas duas actrizes. Elas conheciam-se e uma acabou por trazer a outra. Em relação à actriz mais velha a Jude Calvet-Toulmin, falei com ela e com o marido e perguntei-lhes se queriam fazer de marido e mulher (separados), no filme. Ou seja no filme ele faz o papel de pai ausente. Na vida real eles são também um casal, no filme desempenham o papel de um ex-casal.

A Ruth Herbert, é uma actriz mais nova que faz teatro e muitas performances, mas nunca tinha feito nada em frente a câmeras, mas dominou completamente as cenas em que aparece. Apesar do filme ser o nome da personagem mais nova e é também o nome do próprio filme, a espinha dorsal é a mãe, porque é ela que carrega o filme às costas, e a actriz Jude Calvert-Toulmin conseguiu encontrar uma série de pontos de referência na sua própria vida para chegar aos sentimentos reprimidos e exacerbados para os quais trabalhámos.

J.D. – Falando agora um pouco mais da ideia conceptual, como surgiu a inspiração para este filme?

J.P.S. – Este filme nasceu da combinação de duas ideias que tinha já há algum tempo. Uma delas assenta na história de um casal separado cuja filha desapareceu e todos os anos no aniversário da filha, eles encontravam-se e faziam amor. A outra ideia é a de uma rapariga que aluga um quarto na casa de uma mulher, cuja filha está desaparecida e quanto mais a senhoria confessa coisas da sua vida, fica-se a perceber que essa rapariga absorve a história e diz ser ela a filha desaparecida e a mãe não a reconhece. Aqui fica-nos a ideia de que a relação entre as duas seria conturbada. Claro que uma mãe iria sempre reconhecer uma filha, mas aí é que entra o absurdo. Partindo destas duas ideias nasceu “Mercy”.

MercyJ.D. – Quanto tempo levou a fazer este filme, “Mercy”?

J.P.S. – O filme tem meia hora, mas as filmagens levaram cerca de seis dias com algum tempo de ensaio, num espaço de duas semanas. Foi filmado em Shefield, e assumidamente lá porque quis absorver o ambiente e a arquitectura de uma cidade que foi industrial. Quis incluir muito do que o industrial tem, que é um ambiente cru, enferrujado e onde existia uma função específica e hoje em dia está a emergir uma força maior. Posso dizer que o filme tem algo de sobrenatural. No DVD que saiu do filme, a Jude Calvert-Toulmin, dá uma entrevista onde aborda esse lado de terror que o filme tem sem nunca se assumir como terror, precisamente pela ambiência, pelo que os sons daquela zona sugerem, pelo design, pelas atmosferas e arquitectura. Posso dizer que estou bastante orgulhoso com alguns dos detalhes que consegui em termos de tons. Há um detalhe que implica um piano que me agradou muito. Quando virem o filme, penso que vão entender esse detalhe. Musicalmente falando o filme volta a ter a colaboração dos Sieben com quem trabalho com regularidade a fazer videoclipes para esse projecto e os quais fazem músicas originais para os meus filmes.

J.D. – Para além deste filme, vieste agora a Portugal para realizar também um documentário. Fala-me um pouco deste projecto.

J.P.S. – A última vez que cá estive foi por causa das filmagens do “Lust – The Power Supreme” do músico Ithaka. Começaram em Inglaterra e continuaram em Junho cá em Portugal, o qual está ainda em produção.

Agora sim, a minha vinda prende-se com um documentário que me pediram para fazer. Trata-se da história sobre um jovem estudante de engenharia que cometeu suicídio e o trabalho parte da investigação que aborda todos os factos e todos os passos que ele deu até cometer o suicídio, uma vez que ele o planeou dois anos antes. Depois vem a parte da celebração do que foi a vida dele. Este rapaz deu muito a muitas pessoas, apesar de ter morrido com 19 anos. Era uma pessoa altruísta, ao ponto de, as razões que o levaram a suicidar-se, ele próprio as relegar para segundo plano. Ele deixou inclusive muitas pistas, coisas escritas e uma carta de despedida. Os pais e a família tinham consciência das ansiedades e dos medos dele, em relação à possibilidade de ele ter herdado certos problemas mentais que existiam na família, dentro dos parâmetros da esquizofrenia. Como ele era uma pessoa que estava constantemente a auto-analizar-se ao ponto extremo de isso não o fazer avançar na vida chegou ao ponto de ter planeado ao detalhe a sua morte. Era uma mente brilhante e diferente em termos de postura. Este rapaz estudou inclusive a forma mais infalível de se matar e não falhar que foi o enforcamento.

A estrutura do documentário era para ser um video do registo de um encontro que vai acontecer, de pessoas que lhe eram chegadas no dia do aniversário dele (se fosse vivo faria daqui a uns dias 21 anos), mas depois acabou por evoluir dessa reunião em que as pessoas poderiam ter a possibilidade de dizer o que quisessem sobre este rapaz para a câmara, para algo mais elaborado onde eu acabei por visitar o local em que ele se suicidou (essa parte já filmei) acompanhado do pai que explica como tudo aconteceu, desde o primeiro momento que leu a carta até que foi à sua procura.

O documentário, apesar de ainda não estar definido deverá chamar-se “A Vida é Simples”.

J.D. – Para além destes dois projectos, estás também envolvido como referiste um pouco atrás, nas filmagens do videoclipe do Artista, Ithaka, “Lust – The Power Supreme”?

J.P.S. – Sim, “Ithaka” é o projecto de hip-hop do norte-americano Ithaka Darin Pappas que viveu em Lisboa cerca de dois ou três anos e que teve inclusive um contrato com a Valentim de Carvalho (lançou dois álbuns), no entanto penso que uma das razões que o trouxe a Portugal foram as ondas, porque ele faz surf. Aqui está mais uma mente brilhante que se expande por várias áreas. Ele é um fotógrafo genial, é escultor entre outras actividades a que se dedica. Quando saiu de Portugal, foi para Los Angeles e depois foi para o Brasil onde reside. Neste momento lança os seus próprios álbuns e é também ele que controla e gere a sua própria carreira. Ao longo do seu percurso e como alguém que cresceu e viveu em Los Angeles que é um sítio com muita cultura, teve sempre pessoas muito experientes e muito boas a trabalhar consigo.

Eu conheci o Darin Pappas cá em Portugal, ainda antes de ir para Inglaterra, faz agora uns 15 anos, e ele tem vindo desde sempre a acompanhar a minha carreira, todo o meu progresso e a minha profissionalização, e sempre dissemos que gostaríamos de fazer coisas juntos. O trabalho dele na minha opinião transcende o hip-hop comum, e ele quis que eu filmasse este tema em particular, por causa do que já conhecia do meu trabalho e do que ele conhece da forma como abordo a questão da sensualidade. O Darin como não tem medo de qualquer tipo de controvérsia, que possa advir da forma como eu possa filmar a sensualidade que é um tema no qual ele expressa várias vertentes da luxúria nas relações humanas incluindo o devorar da espiritualidade que no fim de contas todos nós temos, deixou-me expressar livremente. O tema chama-se “Lust – The Power Supreme” e eu apresentei-lhe uma ideia com influências de banda desenhada japonesa (Manga), em termos de estética, mas filmado com pessoas reais, ideias das quais ele gostou muito. O vídeo era para focar períodos da vida de uma jovem e da sua evolução para o estado de mulher madura em que ela deixaria a sua luxúria tomar conta da sua vida, dentro do que é aceitável socialmente, mas depois acabei por (como já fiz no passado, por exemplo para o projecto Sieben no videoclipe “He Can Delve In Hearts”), de abordar múltiplas personagens em segmentos mais ou menos ligados e que neste caso mostram várias vertentes da luxúria. Não posso deixar de referir a presença numa parte deste trabalho de duas actrizes portuguesas fabulosas, a Sandra Rosado e a Sara Belo entre outras presenças. Começámos a filmar há cerca de um mês e a maioria já está feito. Trabalhar com certos actores tem sido um processo muito especial porque em alguns casos já trabalhei com eles no passado.

J.D. – São quase 15 anos a viver e a trabalhar em Inglaterra, que balanço fazes da tua saída de Portugal?

joao-paulo-simoesJ.P.S. – Podemos falar disso sob duas versões: a versão oficial em relação às circunstâncias económico-sociais do país e na generalidade em relação ao que pensam as pessoas que como eu trabalham no cinema e em áreas adjacentes, que é: o resultado do que se faz é o reflexo do estado do país, ou posso falar-te simplesmente da minha experiência pessoal.

Ao longo destes anos desenvolvi uma forma de trabalhar que se prende com o fazer as coisas e apresentar um bom resultado com poucos ingredientes e com limitações às vezes extremas. Assim que se colocou a decisão de grandes cortes nesta área, em Inglaterra, nas mãos dos conservadores/direita, foram logo tomadas, ou seja os apoios ao cinema foram cortados, ou como eles gostam de dizer foram redistribuídos (risos) …, mas de certa forma estas circunstâncias mais precárias acabaram por ir de encontro à minha forma de trabalhar. Eu tenho vindo a trabalhar e a realizar projectos na área documental por exemplo de uma forma regular e portanto posso dizer que agora o balanço é positivo, na medida em que estou com mais trabalho agora do que quando fui para lá. Esta é a altura em que a Frontier Media, a empresa que fundei para trabalhos comerciais está bastante mais estabelecida e com mais trabalho e a expandir-se para outras áreas de media. Penso que trabalho gera sempre trabalho e isso é uma sorte que eu tenho tido porque sem enveredar por grandes redes tenho tido pessoas que me contratam e que gostam do meu trabalho.

J.D. – E agora neste momento se posso colocar a questão assim, já estás a “cozinhar” algum novo projecto?

J.P.S. – É mesmo “cozinhar”, porque eu trabalho com ingredientes (risos), e eles têm de bater todos certo, e eu costumo usar essa analogia da cozinha para as coisas que faço. Quando faço cinema, a receita tem de estar muito bem estabelecida e muito bem planeada. Quando faço videoclipes estruturo tudo, mas existe mais liberdade para a experimentação… tal como na cozinha, também aí há espaço para improvisar.

Mas respondendo à tua pergunta e em termos do que vou fazer a seguir ao videoclipe do Ithaka, vou voltar a um projecto que tenho estado a desenvolver e para o qual já tenho material. O teaser sobre este trabalho que é um docudrama já está online e pode ser visto no blogue The Signal Movie e é sobre uma doença do ouvido interno que se chama Síndrome de Ménière, em inglês, Meniere’s disease. Está já a ser desenvolvido há uns anos e como expliquei vai ser uma mistura de documentário com ficção. A abordagem vai ser colocar uma personagem fictícia que ilustra o problema em situações reais. A actriz que faz o papel quando estiver a ser diagnosticada vai estar a ser consultada por um médico a sério, que vai dar o diagnóstico, tal como o faria a uma pessoa com o problema real. Quando houver cenas em reuniões de grupos de apoio, ela vai estar entre pessoas que têm na realidade o problema e vão estar a falar da sua experiência. A actriz estará unicamente a desempenhar o seu papel. Este é um dos meus projectos que está pendente por causa de financiamento. Para este trabalho está já a decorrer uma campanha intensiva incluindo online, em anúncios no Facebook e noutras redes sociais e claro, o trailer.

Para além deste, tenho já em desenvolvimento outros projectos mais pessoais. Um deles é uma sequela não oficial do último trabalho que fiz para os Zieben, o “He Can Delve In Hearts”, que é o desenvolvimento de uma das personagens. Outro trabalho que tenho em mãos é também uma sequela… a continuação do “Mercy”, que se prende com uma outra perspectiva da questão, mas da qual ainda não posso falar muito, mas que se vai chamar “Verity”.

Já tenho também o meu nome no contrato para mais trabalhos na área documental, os quais vão sem dúvida causar polémica e levar-me a outros hemisférios geográficos literalmente.

J.D. – A terminar faço-te a pergunta que é já da praxe ou um pedido se preferires, gostaria que deixasses uma mensagem a quem possa vir a ler esta entrevista…

J.P.S. – Gostaria de deixar uma mensagem para aqueles que estão a começar ou já estão neste ramo há algum tempo, mas somente para aqueles que o fazem pelas razões certas… Não o deixarem de fazer só porque não há apoios.

O Jornal Dínamo® agradece ao Realizador João Paulo Simões a oportunidade de efectuar esta entrevista.

Fotos: Sandra Adonis / Captura Filmes

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