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Ruy de Carvalho, Actor

Uma outra foi com a Carlota que é a minha apaixonada, que tem um vinho do Porto magnífico, a quem eu ensino como é que se percebe se o vinho do Porto é velho ou não é velho… não sei se sabe? é que quanto mais velho, mais lágrima deixa no copo e fica um pouco mais pegajoso. Depois há formas de se mexer no copo, de uma forma requintada e então tudo isto tem que se aprender. Eu por acaso sou escanção por confraria. Sou confrade dos Filhos da Bairrada e pertenço a várias confrarias para além desta. Sou Confrade da Broa de Avintes, das Tripas à Moda do Porto, dos Ovos-Moles, da Chanfana, dos Vinhos da Bairrada, do Bacalhau, das Sardinhas Doces … enfim só de coisas boas (risos). Agora, em breve, vou pertencer à Confraria dos Cães Serra da Estrela.

J. D. – Este é também um ano em que comemora 85 anos, e foi o ano em que editou a sua Autobiografia, “Os Anjos não têm Asas”. Fale-me um pouco de mais esta dádiva às pessoas?

Ruy de Carvalho – Sim. Houve um encontro nesta edição muito interessante. A editora achou que valia a pena falar comigo. Julgo que é o último livro que farei e tenho a sorte e honra de ter um genro que sabe organizar as palavras e contar as coisas como deve ser e que tinha uma grande amizade pela minha mulher e uma grande empatia com ela, e a minha mulher ainda chegou a fazer um prefácio de um livro dele que se chama “O Ventre da Natureza” que tem muito a ver com as suas posições esotéricas. Apesar de o livro ser meu, acho que não o conseguiria escrever tão bem como ele o fez. A minha mulher dizia que eu escrevia bem, mas eu não tenho a organização que ele tem. Ele escreve de tal maneira que parece que sou eu que estou a “falar” na primeira pessoa. Parece que fui eu que escrevi. Acho que ele é uma pessoa extremamente dotada e penso que ninguém escreveria o livro de uma forma tão clara e directa como ele o fez.

J. D. – Numa das partes do seu livro diz “Deus nunca esteve tão perto e tão longe dos homens como agora”. Quer isso dizer que o Ser Humano pode não estar a ir pelo caminho mais certo?

Ruy de Carvalho – É isso exactamente que eu quis dizer. Estamos cada vez mais a afastarmo-nos de um “Deus”. Há quem acredite nele, quem não acredite, mas a verdade é que tudo se diz “Graças de Deus”. Mas sobretudo a mensagem que Deus deixou através de Cristo que é “Paz entre os Homens”, essa mensagem não está a ser cumprida, e às vezes quem deve passar essa mensagem também não está a cumprir o seu papel. Eu penso que Cristo foi Liberdade. E a Liberdade foi condenada porque o mataram, e ele morreu para mostrar que isso não era Liberdade, porque ele era completamente livre e tinha uma coragem extraordinária… será que foi só Homem? … será que ressuscitou? … para onde é que ele foi? … eu penso que ele está um pouco dentro de todos nós… uns cumprem outros não. Podemos falar também de S. Francisco de Assis que foi extraordinariamente Cristo, e esse existiu e tinha um corpo e no entanto esteve no meio dos homens e deixou obra feita. Eu tive o prazer e a honra de representar na Rádio a vida de S. Francisco, e quando fui a Itália a Assis, parecia que tinha lá vivido toda a vida.

J. D. – Fala também, como uma das boas lembranças que tem do Teatro Nacional D. Maria II, da peça “A Ceia dos Cardeais” onde contracenou com os dois Actores, Curado Ribeiro e Varela Silva. Esta peça pelo que percebi marcou-o porque foi feita especificamente pelos três?

Ruy de Carvalho – A peça funcionou porque está muito bem escrita. É um alexandrino maravilhoso. O Júlio Dantas tinha uma forma de escrever belíssima. “A Ceia dos Cardeais” é um exemplo de liberdade, dentro de uma coisa cheia de preconceitos. Todos os Cardeais amaram de maneiras diferentes e o que amou mais foi o Português… é como nas anedotas… o português é sempre o melhor (risos) … um foi toureiro (o Espanhol), o outro que era Francês foi um charmoso e há o Português que é o bom, e que se chamava Padre Gonzaga. No entanto a melhor parte desse espectáculo era mesmo a segunda parte. Esta parte do espectáculo chamava-se “Três actores, um texto e uma conversa…” aqui o texto foi o motivo. Um dia, em Lagos, o espectáculo começou às 9 da noite e acabou às 3 da manhã, porque as pessoas perguntavam acerca de variadíssimos poetas. A segunda parte era um diálogo em que se falava dos amigos, dos inimigos e nós tínhamos coisas de um lado e de outro. Foi, sem dúvida, fascinante fazer esta peça.

J. D. – Há uma outra história que conta no seu livro acerca de um Senhor que se chamava Lourenço, um Africano que era Carpinteiro no Teatro, e que se passou quando fez a personagem Lucky na peça “À Espera de Godot”. Considera que o Teatro cumpre uma missão, que vai muito para lá do entretenimento, sem falar que é uma forma de abordar questões quotidianas?

Ruy de Carvalho – Em África há uma grande consciência. A personagem do Lucky que eu fazia, tem uma coleira, tem malas penduradas, tem um discurso caótico e é branco. Este episódio aconteceu no dia da estreia. Quando a peça chega ao fim, o Lucky ficava sempre em cena pendurado pela coleira que era puxada de vez em quando e agarrado às malas. Entretanto o Sr. Lourenço, vou dar com ele a chorar numa escada. Então virei-me para ele e perguntei-lhe “Então o que é isso, porque é que está a chorar?” e ele diz-me “eu não sabia que os brancos também sofriam tanto”. Para mim foi muito chocante, e de tal forma foi que nunca mais me esqueci desta situação. Ou seja ele viu que não eram só os negros que sofriam, mas que os brancos também sofriam, e esta consciência foi igualmente um choque para ele. Por isso sim, o teatro pode ter um papel importante e mexer com as consciências das pessoas.

J. D. – O que pensa do estado da Cultura em Portugal?

Ruy de Carvalho – O estado da Cultura está mau. Não está pior do que já esteve, está talvez um bocadinho melhor e há sobretudo uma coisa que me dá muita esperança que é a juventude que anda à procura de um lado cada vez mais cultural, ou seja estão-se a cultivar. Estão a regar o seu jardim maravilhoso que é o jardim da cultura. Nesta altura, o não termos Ministro da Cultura faz com que quem mande seja o Primeiro-Ministro. O problema é que ele não deve ter tempo de pensar em Culturas.

J. D. – A terminar, pedia-lhe que deixasse algumas palavras às pessoas que possam vir a ler esta entrevista?

Ruy de Carvalho – Gostaria de deixar uma frase… “Sorrir ajuda a conviver… sorriam porque convivem melhor”… vê que está a sorrir? (risos)

O Jornal Dínamo® agradece ao Actor Ruy de Carvalho e ao Hotel Riviera em Carcavelos a oportunidade de realizar esta entrevista.

Fotos: Pedro Sousa Filipe

Ruy de Carvalho

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