Iggy Pop
Acto II
James Newell Osterberg, nascido em Muskegon nos EUA no ano de 1947. Estes são os dados elementares do cidadão que ocasionalmente surgirão num ou outro registo oficial.
Mas, e quando falamos de Iggy Pop? Falamos de uma conjunção que a gramática não classifica, porém é feliz.
Pois falamos antes de tudo do Padrinho do Punk e de um património que vem da década de 60 até à actualidade, com uma vida carregada de excessos e malabarismos habituais das estrelas do rock.
Apesar de fisicamente os estragos de uma vida de excessos estarem espelhados na imagem do artista, a criatividade e até genialidade para alguns mantêm-se intactas na subtileza com que continua a cavalgar o pós-punk como a estrela maior do género.
Sim, é bem possível que esta digressão e a passagem por Lisboa, no segundo dia do Super Bock Super Rock, tenha sido a última de uma carreira vibrante de Iggy, com características únicas no conjunto da genialidade dos universos do artista, nomeadamente os riffs poderosos e uma bateria endiabrada que fazem de Iggy, um deus do Olimpo.
Na actuação no MEO Arena, não podemos deixar de referir que a mesma seria imperdível e quem esteve no SBSR não poderia deixar de a classificar com incendiária como é seu apanágio.
Os hits de sempre estiveram lá e foram destilados como hinos gloriosos do punk, logo no início da actuação. Uma máquina imparável que disparou e demoliu todas as expectativas no sentido em que os presentes ficaram arrebatados, em “No Fun” ou “I wanna be your dog” (da banda proto-punk Stooges que teve uma ascensão tão meteórica como o seu desaparecimento e onde Iggy foi o protagonista principal, deixando o legado cravado na rocha do punk).
A imagem, a de sempre – sem camisola e aquela atitude de estrela de rock a espalhar “charme” numa incansável actuação de alguém a quem os 69 anos já pesam e as mazelas são mais fortes que a vontade de continuar a dar vida à personagem que ele próprio eternizou na música.
Iggy Pop durante o concerto mostrou a disponibilidade que muito poucos são capazes de ter, nas circunstâncias do artista norte-americano. Acariciou um público que o venera, abraçou fãs e regressou ao palco para o seu adeus em “Wild America”.
Ficamos na incerteza se voltará, mas com a certeza de que a carreira do Godfather do Punk é um pináculo incontornável da música.
Massive Attack & Young Fathers – “Je Suis Nice”
Não existirá vivalma neste país que nunca tenha ouvido falar da banda britânica Massive Attack. Da mesma forma que existirá sempre neste país alguém que o dirá – “é a minha banda favorita”, “Teardrop é naturalmente uma canção genial”.
Isto para concluirmos um facto; os Massive Attack, com o seu extenso percurso na música, reúnem a unanimidade de serem uma banda que passou a barreira da década de 90 e continuam a pertencer ao leque de preferências do público português.
Na 22ª edição do SBSR e no segundo dia do festival, o duo inglês que encabeça o projecto, 3D e Daddy G, regressam aos palcos portugueses para um reencontro intimista que serpenteia as melodias de forma contagiante e entregam no seu estilo trip hop, a intensidade dramática e hipnótica a que já nos habituamos.
No Super Bock não foi diferente e os ingleses já conhecem o público do festival (em 2004 e 2014 já haviam estado no SBSR, na foz do rio Trancão e no Meco) e voltaram a repetir a proeza no MEO Arena ao encerrarem as festividades do segundo dia.
As tempestades projectadas no fundo, os grafismos e jogos de luzes dão uma carga ainda mais dramática e sideral ao ambiente carregado de hipnopatias e pouco minutos após as 12 badaladas, entrava em palco um dos projectos musicais mais acarinhados de sempre no nosso país.
A densidade dos Massive Attack fez adivinhar um início de concerto intenso e “Ritual Spirit” projectar-se-ia de forma triunfal e capaz de arrancar arrepios do fundo da espinha – diríamos mesmo, que foi um momento contemplativo.
“Pray for Rain” aprofundaria ainda a mais a sensação de viagem espectral onde, as texturas e rasgos das batidas são tonalidades harmoniosas e combinações quase poéticas de sensações e cores.
A entrada dos Young Fathers, fez-se de forma cerimonial e combinações perfeitas, da sonoridade que mistura rap e solos que contagiam de forma impressionante a plateia.
A Plateia. Essa que por momentos é levada a um manifesto de político, inconformado do estado na nação – falemos de nação enquanto mundo globalizado onde todos pertencemos a um corpo indissociável.
A recordação da tragédia de Nice, ocorrida no dia anterior, é projectada de forma triste mas revolucionária, na necessidade de compor um mundo que se apresenta podre. Na tela de fundo, vislumbramos uma sucessão de mensagens políticas e algumas entidades que por um acaso sentem ódio da democracia e da paz – são simplesmente o horror do terrorismo que a todos afecta.
Acompanhar “He needs Me”, onde os Young Fathers completam ainda mais a carga dramática da incompreensibilidade de tais actos.
A mensagem política nunca haveria de desaparecer num concerto marcado pela combinação perfeita de digitalismo, profundidade estilística e sonoridades com beats profundos que marcariam uma actuação em que as palavras não chegam a ser reveladoras da qualidade dos Massive Attack.
Um encerramento do segundo dia genial.
Foto: Música no Coração

