‘A Gaivota’ no Teatro da Trindade

Logo Teatro da TrindadeEscrita em 1895, ‘A Gaivota’ é uma das mais emblemáticas peças de Tchékhov e é frequentemente considerada um comentário meta-teatral à natureza da arte e dos artistas. Nesta versão actualizada, a acção passa-se numa propriedade rural isolada, onde são explorados os conflitos românticos e artísticos entre as personagens Irina Arkadina, Alexandre Trigorin, Constantino Treplev (filho de Irina) e a jovem Nina Zarechnaya. À medida que as suas vidas se vão cruzando e nos revelam os seus sonhos, ambições e frustrações, as personagens ganham fôlego nesta intemporal história sobre o poder, a fama e os sacrifícios que se fazem em nome da arte. Depois de, em 1992, ter interpretado o papel de Nina na celebrada produção do Teatro da Graça, Alexandra Lencastre dá agora corpo e voz a Irina Arkadina, a diva do teatro clássico, cuja personalidade se impõe no palco e fora dele.

Para Diogo Infante, esta encenação é o desfecho de um sonho antigo: “Esta é uma das obras de leitura obrigatória para todos aquele que, como eu, passaram pelo antigo Conservatório Nacional. À época e dada a tenra idade, todos sonhámos em ser Nina ou Treplev e poder interpretar aquelas personagens ricas, cheias de contradições, amores cruzados, sonhos de sucesso e questões existencialistas sobre a vida, a morte, a própria arte. Trinta e cinco anos depois de ter concluído o curso de teatro, tenho o privilégio de concretizar esse sonho, ao dirigir este texto maravilhoso, que, apesar de ter sido escrito em 1895, continua a ser de enorme actualidade.”

Excerto da Peça

PEDRO (Guilherme Filipe) – Olha lá, o que é que se passa com a tua mãe? Anda inquieta.
CONSTANTINO (André Leitão) – Anda com ciúmes da Nina, por ela ir representar na minha peça. Ela não suporta não ser o centro das atenções, mesmo num palco pequenino como este. Ainda não leu a peça, mas já a odeia.
PEDRO – Que disparate!
André LeitãoCONSTANTINO – A mãe é uma mulher complicada. Psicologicamente fascinante, muito inteligente e incrivelmente talentosa, não há dúvida, mas experimenta fazer um elogio a outra actriz… Meu Deus! Só ela é que pode receber elogios… Ai, adorei a sua Fedra, bem, a sua Blanche du Bois mudou a minha vida, e o que dizer da sua Cleópatra? Ela é viciada em adulação, só que aqui no campo não recebe a dose, e como eu dei o papel principal à Nina e ela não vai poder representar para o namorado, o escritor famoso, é por isso que ela anda irritada e nos odeia a todos. E ainda por cima é sovina. Quanto mais velha, mais agarrada. Toda a gente sabe que ela tem dinheiro guardado numa conta na Suíça, mas se lhe pedires algum emprestado, tem logo um ataque e começa a chorar, a dizer que mal tem para viver.
PEDRO – A tua mãe adora-te!
CONSTANTINO – Não, não adora. A minha mãe adora as suas roupas de marca, a mim, não. Eu tenho 25 anos e a minha presença é uma incómoda recordação da inevitável passagem do tempo. Quando eu não estou por perto, ela diz que tem 42, quando eu chego, ela diz que tem 50 e odeia-me por isso. E depois, ela sabe que eu não suporto o tipo de teatro que ela fez durante toda a sua carreira. Convencional, árido, sem interesse nenhum. Todos convencidos que estão a retractar a vida como ela é e a passar mensagens cheias de significado e moral. Uma moral banal, vazia, complacente, isso sim. Textos completamente irrelevantes, inconsequentes. Lá porque foram feitos muitas vezes e são populares e vendem não significa que sejam bons. Guilherme FilipeNão há uma ideia nova, ninguém arrisca verdadeiramente. Dá-me vontade de gritar…
PEDRO – Mas não podemos viver sem o teatro, sem os clássicos…
CONSTANTINO – Para o teatro sobreviver, é preciso novas formas de pensar, tio, novas vozes, novas perspectivas. Não podem ser só pessoas para ali a falar e a teorizar sobre coisas que não interessam nada, e, sinceramente, se não for possível fazer algo de novo, então mais vale não fazerem nada. Eu amo a minha mãe, a sério, amo-a muito. Mas eu não consigo perceber o que é que ela anda a fazer atrelada àquele romancista. E depois, eles estão sempre a ser falados nos jornais e na televisão. Eu juro, estou tão farto. Às vezes, fico mesmo zangado com o facto de a minha mãe ser uma actriz conhecida. Às vezes, só queria que ela fosse uma mulher normal. Tio, consegues imaginar o que foi crescer rodeado de gente famosa, actores, cantores, músicos, que nas festas que ela dava olhavam para mim de lado, a tentar perceber exactamente quão insignificante eu era, a julgarem-me, e que, no fundo, só falavam comigo por eu ser filho dela? Era tão humilhante.

A Gaivota

Elenco

Alexandra Lencastre, André Leitão, António Melo, Flávio Gil, Guilherme Filipe, Ivo Canelas, Margarida Bakker, Pedro Laginha, Rita Rocha Silva, Rita Salema.
Tradução e encenação: Diogo Infante.

 

Ensaio Solidário

O ensaio solidário decorrerá no dia 28 de Janeiro, às 21h00. Os bilhetes têm um custo fixo de 15 € e a receita reverte, na sua totalidade, a favor da APOIARTE – Casa do Artista.

A Gaivota” é uma produção do Teatro da Trindade INATELestará em cena na Sala Carmen Dolores, de 29 de Janeiro a 5 de Abril, de quarta-feira a sábado, às 21h, e ao domingo, às 16h30. Duração: 1h45. Maiores de 12 anos. Bilhetes: 10 € a 22 €.

 

A Gaivota

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